03/20/2026
Relacionamentos, Trabalho
Uma confiança compatível com a gentileza
Existe uma razão pela qual hesitamos diante da ideia de nos tornarmos mais confiantes.
Não é exatamente a confiança que nos incomoda mas as imagens que aprendemos a associar a ela. Durante muito tempo, ser confiante pareceu significar uma certa performance: uma segurança inflada, um otimismo simplificado demais. O atleta perfeito da universidade. O executivo que fala demais e escuta de menos.
Não é com isso que queremos nos parecer.
E então, quase sem perceber, fazemos o movimento oposto.
Nos contemos. Falamos menos. Duvidamos mais. Nos colocamos um passo atrás. E, curiosamente, às vezes até sentimos um certo orgulho nisso, como se a autocrítica fosse uma forma mais elegante de existir. Mas talvez exista um mal-entendido aqui.
E é por isso que vale a pena voltar a uma cena improvável: um grupo de pessoas sentadas na grama de uma praça no centro de Londres, em 1915.
Eles faziam parte do que hoje conhecemos como o Grupo Bloomsbury, um dos movimentos intelectuais mais influentes do século XX, responsável por transformações profundas na literatura, na arte, na economia e no pensamento moderno.
O que os tornava singulares não era apenas o que pensavam, mas como se apresentavam ao mundo.Eram, em muitos casos, discretos. Delicados. Quase tímidos.
O pintor Duncan Grant pedia desculpas com frequência. O biógrafo Lytton Strachey falava baixo, com cuidado.Vanessa Bell preferia fazer perguntas, como forma de suavizar a própria inteligência.E, ainda assim, foram revolucionários.
Esses homens e mulheres ajudaram a desmontar as certezas rígidas da Era Vitoriana e abriram caminho para o mundo moderno. John Maynard Keynes reinventou a economia. Virginia Woolf transformou o romance. Vanessa Bell introduziu novas formas de ver e criar.
Fizeram tudo isso sustentados por um tipo de confiança menos óbvio e mais silencioso, mais contido, mas não menos firme. Uma confiança compatível com gentileza, com dúvida, com nuance. Uma confiança que não precisa dominar a sala para existir.Talvez seja aí que mora o convite. Corremos o risco de desperdiçar partes importantes de quem somos quando insistimos em uma única imagem de confiança. Porque podemos, na verdade, ser quietos e confiantes. Gentis e confiantes. Reflexivos e confiantes.Podemos continuar sendo nós mesmos e, ainda assim, sustentar com firmeza aquilo que importa. Existe uma forma de confiança que não precisa endurecer para ser forte. Que não precisa se impor para transformar. E talvez seja justamente essa que, com mais delicadeza, muda o mundo.
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