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A diferença entre filosofia e psicoterapia

À distância, as disciplinas da filosofia e da psicoterapia parecem muito semelhantes. Ambas se interessam por grandes temas da mente, ambas parecem preocupadas em ajudar as pessoas a encontrar sentido, ambas são orientadas para a geração de felicidade.

Mas existe uma diferença central entre elas. A filosofia acredita que as pessoas verão a luz e mudarão assim que a verdade lhes for apresentada. A psicoterapia, de forma muito mais sábia e interessante, sabe que quase nunca é assim. Essa disciplina se interessa, acima de tudo, pela exploração e superação dos mecanismos de defesa, as extraordinárias barreiras que erguemos para nos proteger de insights ousados, porém assustadores, que poderiam, se tivéssemos coragem de enfrentá-los, mudar nossas vidas para melhor.

A fé filosófica na verdade

Quando a filosofia surgiu na Atenas Antiga, acreditava-se que a verdade, por si só, seria suficiente para desbloquear o desenvolvimento ético e espiritual das pessoas. Nos diálogos de Platão, Sócrates aparece em conversa com diversos atenienses, cujo pensamento confuso ele esclarece com extraordinária ousadia e franqueza cortante, em pouquíssimo tempo e com resultados quase mágicos.

Após vinte minutos de pensamento dialético, um tirano percebe que deveria ser bom com seu povo; um comerciante rico decide, numa breve caminhada da praça do mercado até o porto, reorientar sua vida em direção à filosofia.

A psicoterapia observa essa confiança excessiva com um sorriso discreto. Ela sabe muito bem que é possível ter uma compreensão perfeitamente correta do que há de errado com alguém e, ainda assim, não conseguir provocar nenhuma mudança. Na maioria das vezes, quando apontamos os erros de alguém, a reação é protesto, negação ou raiva.

Somos mestres em afastar boas ideias. Decidimos que quem nos oferece um insight está tentando nos prejudicar; concluímos que estamos sendo atacados, não ajudados; escutamos e logo esquecemos o que foi dito; nos viciamos em álcool, esporte ou notícias para garantir que nunca consigamos pensar ou sentir com profundidade. Nossas mentes não parecem estar configuradas, em primeiro lugar, para receber insights e crescer; elas são, sobretudo, projetadas para manter a ordem estabelecida em nome de uma paz imediata e estéril.

Filosofia versus psicoterapia

Um psicoterapeuta experiente costuma ser capaz de identificar, ao final da primeira sessão de cinquenta e cinco minutos, o que “está errado” com um paciente. Ele consegue perceber se a pessoa tenta agradar a todos, se não consegue se separar da mãe ou se busca punição por meio do sexo após uma infância abusiva. Mas dizer isso de forma direta seria quase inútil.

A verdade precisa ser cortada em pedaços muito pequenos e oferecida ao longo de meses ou anos para que tenha alguma chance de ser digerida.

O que a psicoterapia compreendeu é que as pessoas só mudam quando, e apenas quando, se sentem extremamente seguras. Qualquer ideia apresentada de forma urgente demais, ousada demais ou direta demais assusta nossas mentes frágeis. Só nos dispomos a explorar nossas falhas e padrões quando sentimos que alguém está inteiramente ao nosso lado.

A própria psicoterapia levou um tempo para absorver plenamente essa ideia. Seus primeiros praticantes eram severos e silenciosos, buscando manter um modelo quase médico de decoro. Raramente sorriam; mantinham uma expressão vazia e quase irritada, até que se percebeu que essa falta de calor, longe de ajudar os pacientes a encarar suas vidas com coragem, tendia a aterrorizá-los, empurrando-os para o silêncio e a vergonha.

As condições sob as quais mudamos

Hoje, o terapeuta médio atua com uma gentileza incomum. Seu sorriso é acolhedor, sua postura é calma e compassiva. Tudo é feito com muita delicadeza. Ele escuta com ternura, na esperança de nos emprestar a energia necessária para, talvez, dezoito meses depois, aceitarmos que, sim, sempre escolhemos parceiros que nos fazem sofrer como nosso pai fazia; ou que temos um padrão de ciúme em relação a mulheres que remonta à nossa relação com a mãe.

Talvez não sejamos terapeutas, mas podemos aprender com a paciência e a humildade dessa disciplina na forma como lidamos com os outros. É tentador, em encontros familiares ou em relacionamentos, simplesmente dizer às pessoas “qual é o problema delas”.

Na próxima vez que a virmos, diremos à nossa mãe qual é, de fato, o problema dela; durante o jantar, explicaremos ao parceiro por que ele sempre sabota suas chances no trabalho.

A psicoterapia nos pede que recuemos. Podemos até estar de posse da verdade; mas tudo depende da nossa tolerância e paciência para transmiti-la. Será preciso fazer com que nosso “aluno” se sinta extremamente seguro, garantir nosso afeto ao longo de um tempo quase inacreditavelmente longo; talvez sejam necessários um ou dois anos para abordar até mesmo a ideia mais simples.

Na longa disputa entre filosofia e psicoterapia, a lição é profundamente humilde. A filosofia acreditava que a verdade, sozinha, poderia nos salvar. A psicoterapia entendeu, com muito mais astúcia, que o insight só nos alcança através do amor.

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By The School of Life

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