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Autoconhecimento, Trabalho
As pessoas podem mudar?
“Será que as pessoas mudam?” A pergunta pode parecer um tanto abstrata, quase filosófica, como se estivéssemos refletindo sobre a natureza humana em geral. Mas, na maioria das vezes, ela nasce de um lugar muito mais íntimo e doloroso.
Costumamos fazê-la quando estamos envolvidos com alguém que nos machuca profundamente: alguém incapaz de se abrir, que mente repetidamente, reage com agressividade, permanece emocionalmente distante, destrói a si mesmo ou acaba devastando quem está ao seu redor. Perguntamos isso porque a solução mais óbvia, simplesmente ir embora, nem sempre nos parece possível. Estamos emocionalmente envolvidos, comprometidos, presos por responsabilidades, esperança ou amor. E, diante dessa pessoa específica, começamos a ampliar a questão: afinal, do que é feita a natureza humana? Até que ponto alguém pode realmente se transformar?
Por que mudar é tão difícil, mesmo quando alguém quer mudar
Uma coisa costuma ficar evidente muito cedo: mesmo que as pessoas possam mudar, elas raramente mudam com facilidade.
Talvez reajam com irritação sempre que levantamos um problema, acusando-nos de sermos excessivamente críticos. Talvez, tarde da noite, confessem entre lágrimas que reconhecem suas dificuldades, apenas para, na manhã seguinte, negar veementemente que exista qualquer questão. Talvez digam que compreenderam tudo, mas essa compreensão jamais apareça justamente nos momentos em que mais importa.
Quando chegamos ao ponto de nos perguntar se alguém é capaz de mudar, normalmente é porque já tivemos inúmeras evidências de que essa mudança não acontece de forma simples, constante ou elegante.
Antes mesmo dessa pergunta, talvez exista outra ainda mais importante: é legítimo desejar que alguém mude?
Quem causa sofrimento costuma responder com indignação que não. “Você deveria me amar do jeito que eu sou”, é o argumento.
Mas, olhando com um pouco mais de imaginação, apenas uma pessoa perfeita poderia afirmar que não precisa crescer em nenhum aspecto para merecer melhor o amor de alguém. Para todos nós, pedidos razoáveis de mudança deveriam ser recebidos com boa vontade e, em certas circunstâncias, com enorme seriedade.
Paradoxalmente, quem reage de maneira mais defensiva à ideia de mudar talvez seja justamente quem mais necessite de uma profunda transformação interior.
Quando permanecer igual é uma forma de proteger antigas feridas
Por que mudar pode ser tão difícil?
Não é apenas uma questão de desconhecimento, como alguém que só percebe um pedaço de espinafre entre os dentes quando outra pessoa aponta. A resistência costuma ser muito mais profunda.
Às vezes, toda a personalidade de alguém foi construída em torno do esforço de não entrar em contato com determinadas emoções ou lembranças. Qualquer possibilidade de insight precisa ser rapidamente afastada. Isso pode acontecer através do álcool, do trabalho compulsivo, da necessidade constante de estar ocupado ou da irritação diante de qualquer pessoa que tente iniciar uma conversa mais honesta.
Em outras palavras, essa pessoa não apenas desconhece algo sobre si mesma: ela está profundamente comprometida em continuar sem saber.
E faz isso porque foge de algo extremamente doloroso em seu passado, algo para o qual, quando criança, não possuía recursos emocionais suficientes e que, muitas vezes, ainda hoje permanece insuportável.
Por isso, talvez não estejamos lidando apenas com alguém incapaz de mudar, mas, antes de tudo, com alguém traumatizado.
Compreender não significa permanecer
Para quem observa de fora, essa resistência pode parecer enlouquecedora.
Pensamos: “Será que ela não consegue dar apenas um pequeno passo na direção certa?”
Mas talvez subestimemos a dimensão do que essa pessoa enfrentou no passado e as circunstâncias em que sua mente foi construída, inclusive todas as portas internas que precisaram ser cuidadosamente trancadas para garantir sua sobrevivência.
Se conseguíssemos enxergar essa história por inteiro, provavelmente seríamos mais realistas e mais compassivos. A pergunta “por que ela simplesmente não muda?” perderia parte da sua força.
Ao mesmo tempo, essa compreensão nos convida a fazer outra pergunta, igualmente importante:
Se as evidências mostram, repetidas vezes, que essa pessoa não consegue mudar e que, portanto, nossas necessidades dificilmente serão atendidas num futuro próximo, por que ainda permanecemos?
Por que insistimos em abrir uma porta que parece não poder ser aberta? Por que voltamos sempre ao mesmo sofrimento esperando um desfecho diferente?
Que parte ferida da nossa própria história não consegue abandonar aquilo que nunca nos preenche? Que esperança antiga continua sendo encenada cada vez que acreditamos que, desta vez, tudo será diferente?
E se a verdadeira mudança for a nossa?
Se estamos falando de mudança, talvez exista uma transformação ainda mais importante do que esperar que o outro mude.
Talvez possamos nos tornar pessoas que já não passam anos aguardando, em suspensão, pela evolução de alguém.
Talvez aprendamos a reconhecer mais cedo quem já é capaz de oferecer a maior parte daquilo de que precisamos, em vez de apostar continuamente em potenciais futuros.
Talvez também desenvolvamos uma dose saudável de firmeza, aquela coragem silenciosa que nos permite deixar para trás quem insiste, repetidamente, em rejeitar nossas necessidades mais legítimas.
Em algum momento, deixamos de perguntar, em desespero, se as pessoas podem mudar.
E começamos, pouco a pouco, a nos tornar alguém que já não precisa esperar tanto tempo para descobrir a resposta.
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