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A Lista

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A Lista

Por Stephen Little 

Há alguns anos, comecei a observar conscientemente a primeira coisa que me vinha à mente ao acordar todas as manhãs.

Na maioria das vezes, o que aparecia durante os primeiros momentos indistintos era “A Lista”. As cortinas que preciso lembrar de consertar, o e-mail que não foi enviado, a revista que meu vizinho pediu emprestada, a conta que ainda não paguei, a programação para o próximo semestre. Às vezes, era “A Lista” que me acordava. E descobri que, se não tomasse cuidado, seria “A Lista” que me tiraria da cama e não o ato suave e consciente de criatividade que eu tanto almejava.

Moro na cidade de São Paulo, no Brasil, onde ministro cursos, workshops e presto consultoria sobre Mindfulness. Ensinar aos outros o valor do momento presente me tornou mais curioso sobre os cantos e recantos de minha própria mente. Nos últimos anos, tenho estado particularmente interessado em perceber se o primeiro estado de espírito do dia afeta meus níveis de estresse durante o resto dele.

Essa é uma cidade grande e movimentada. Somos 19 milhões de pessoas amontoadas e nossa grande fama é que nossa solução para o problema do trânsito é ter a maior frota de helicópteros do mundo. São Paulo é o único lugar que conheço onde as pessoas, depois de aprenderem sua primeira meditação, frequentemente relatam que ficaram maravilhadas ao descobrir que podiam se concentrar em sua respiração e realizar várias tarefas ao mesmo tempo.

À medida que fiquei mais curioso sobre minha mente, comecei a notar que “A Lista” surgia até mesmo quando eu parava e me sentava para meditar. Eu fechava os olhos e lá estava ela: “Ei! Há mil coisas mais importantes a fazer do que ficar aí sentado!”. Na verdade, naquela época, cheguei a pensar que se eu fosse atropelado por um ônibus, a última coisa que provavelmente passaria pela minha mente não seria minha vida ou meus entes queridos. Sim, provavelmente teria sido aquela maldita revista que eu ainda não tinha encontrado. Ou algo parecido.

Então eu fiz uma pequena pesquisa. Parece que a causa raiz da “Lista” foi reconhecida há muito tempo. Os budistas descobriram o que chamam de “Mente Calculista”. Eles a consideravam uma tendência universal e a associavam à imagem de um chimpanzé leviano em um pé de manga. Ele pula de fruta em fruta, mastigando sem parar, sem nunca terminar totalmente nenhuma delas – o que se parece muito com meus dias ruins. Essa Mente Calculista é uma inquietação profunda. Uma espécie de anseio nervoso que permanece despercebido nos bastidores enquanto atuamos na superfície. De acordo com as tradições orientais, aqueles de nós que permitem que esse tipo de agitação se torne automática se tornam como homens que cavam o solo à procura do céu.

A prática de Mindfulness aborda tudo isso de uma maneira única. É feita uma mudança consciente em busca de aprender o que significa viver, de dentro para fora, em vez de ser refém de uma constante ansiedade e inquietação que ficam ao fundo. A prática diária de Mindfulness aumenta a possibilidade de olharmos para trás, ao final de nossas vidas, e vermos que estivemos realmente presentes ao longo dela, à medida que se desenvolvia em todas as suas múltiplas formas.

A prática nos ensina a nos abrir para a ansiedade em vez de evitá-la. Parece que, longe de ser a inimiga do estado, a ansiedade simplesmente precisa de nossa atenção. Não podemos desligá-la – por mais que quiséssemos. Parece que as mentes não funcionam assim. Carl Jung sabia disso quando afirmou: “Aquilo a que resistimos, persiste”. A vitalidade aprisionada na ansiedade pode ser usada para impulsionar nossa evolução pessoal. No entanto, provavelmente continuará aprisionada até que aprendamos a enfrentar “A Lista” com atenção e fazer uso das suas reservas.

O Mindfulness nos convida, momento a momento, dia após dia, a entrar em um novo relacionamento com nossa ansiedade em seu ponto mais tangível – o corpo. Nada é mais real do que isso. Se você tem tendência a ser muito intelectual ou a viver em um mundo virtual, a ansiedade retida no corpo é um bom ponto de partida. Em meus próprios esforços para viver plenamente, “A Lista” e sua inquietação subjacente tornaram-se minhas companheiras mais próximas.

Descobri que existem muitas oportunidades para fazer essa mudança consciente – no momento em que você abre os olhos, durante os altos e baixos do dia e antes de apagar as luzes. E se, em vez de se deixar levar por um tsunami de pensamentos sobre as urgências atuais, você simplesmente parasse e colocasse sua atenção no silêncio do seu corpo para sentir o que está realmente acontecendo nele por alguns momentos? Dessa forma, você também pode realizar um pequeno experimento e ver se, depois, há uma melhora na maneira como você conduz o seu dia.

Então, vamos voltar ao nosso estado mental inicial pela manhã. Se a primeira coisa que sua mente faz tende a ser ruminar sobre uma série de tarefas aparentemente urgentes impulsionadas por uma inquietação física real (mas em grande parte despercebida), o que aconteceria se você decidisse, em vez disso, começar o dia com uma tarefa de “não fazer”?

Reserve alguns momentos para sentir a sua própria existência – agradável ou desagradável – exatamente como ela está. Faça isso antes de sair da cama. Sinta o peso do seu corpo – as sensações que os lençóis criam na pele, ou a luz do ambiente através das pálpebras fechadas. Dê a si mesmo alguns minutos todos os dias para realmente acordar. A fila mental de lembretes e post-its pode esperar um pouco? Se puder, então talvez você consiga estar mais empenhado para lidar com ela depois de ter praticado Mindfulness. E mais do que isso. Talvez você descubra, mais uma vez, que sua vida em si não é na verdade “A Lista”.

 

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By The School of Life

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