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A Psicologia do Ghosting
Não vamos muito longe no mundo dos relacionamentos sem esbarrar no triste fenômeno conhecido como ghosting: alguém com quem tivemos certa proximidade – e que foi fonte de grande conforto e segurança – de repente, talvez após um fim de semana agradável ou alguns meses intensos, se recusa a responder nossas mensagens, bloqueia nosso acesso a ele em todos os canais disponíveis e, na prática, desaparece do planeta.
Para compreender mais profundamente essa experiência, precisamos considerar a psicologia do ghosting: o que poderia levar alguém a agir assim? É tentador responder à tristeza e à confusão que se seguem com indignação, dizendo que a pessoa que some é insensível, grosseira, cruel e monstruosa.
Ela pode até ser tudo isso, mas pode ser igualmente importante para nossa recuperação tentar entender o que motivou esse comportamento. Por que alguém escolhe fugir de forma tão fria de alguém com quem já esteve conectado?
Podemos propor que, nos bastidores, a pessoa que pratica ghosting opera com três crenças centrais:
1. “Se eu explicar, ninguém vai entender”
O ghoster imagina que os outros não teriam qualquer disposição para ouvir sua verdade – por mais que tentasse expressá-la. Ninguém se importaria com sua visão das coisas. Se tentasse expor seu lado da história, seria recebido com raiva e fúria. Explicações só piorariam a situação. Nunca conseguiria dizer com sucesso: “Sinto muito, achei que isso seria uma relação viável, mas agora percebo que não é – não porque eu seja cruel, mas porque entendi mal meus sentimentos.” Esse tipo de fala pareceria um convite aberto à catástrofe.
Por trás desse pessimismo ilusório quanto ao resultado de falar claramente, costumam estar experiências de infância marcadas pela convivência com pessoas aterrorizantes, incapazes de tolerar qualquer frustração ou mágoa vinda de seus filhos. O ghoster aprendeu cedo: “Você nunca será perdoado por nada que me desagrade. Vou tentar te punir severamente a cada transgressão, então (implicitamente) nem pense em confessar ou reparar.”
Essas vivências ofereceram a ele uma formação avançada na necessidade de enganar e dissimular. Aprendeu tudo sobre a importância da dissimulação e da bajulação evasiva. Aprendeu a mentir compulsivamente porque as figuras importantes em sua vida eram incapazes de lidar com sua verdade.
Por isso, tornaram-se adultos que não veem outra saída para os problemas que criam além de fingir cruelmente que são inocentes. Não estão apenas sendo covardes; estão também – por baixo do caos – extremamente assustados.
2. “Estou tão enojado de mim mesmo que não consigo encarar o que fiz”
Ao contrário do que muitos pensam, o ghoster não está nem um pouco tranquilo em relação às próprias ações. Pelo contrário: está tão incomodado que não consegue nem lidar. Não acredita, nem por um segundo, que seu comportamento seja aceitável. Na verdade, costuma estar tão enojado de si mesmo (devido a um sentimento de inaceitabilidade originado na infância) que não encontra – de forma paradoxal e nada útil – uma maneira gentil de lidar com a falta de gentileza de que é responsável.
É preciso um certo grau saudável de amor-próprio para encarar os próprios erros. É necessário gostar o suficiente de si para levantar a mão e dizer: “É verdade, fui meio desagradável…” Mas, se a pessoa já está esmagada por um ódio constante contra si mesma, talvez não tenha energia para refletir sobre mais um motivo para se sentir indigna e sem valor. Sente-se péssima demais para encarar mais uma camada de ruindade.
Podemos acabar odiando o ghoster; mas ele se odeia ainda mais do que nós jamais poderíamos.
3. “A necessidade é repulsiva”
O ghoster pode se imaginar interessado em amor; mas, em seu núcleo, também sente repulsa pela vulnerabilidade e pela chamada “carência” que o amor envolve.
Muito tempo atrás, foi ridicularizado ou ferido por causa de suas necessidades, e agora aprendeu a desprezar nos outros aquilo que as figuras parentais desprezaram nele. A forma como nos abandona é um reflexo da maneira como aqueles de quem precisava o trataram – e também o abandonaram.
Ele não está apenas fugindo; está punindo sua vítima por uma ternura pela qual foi censurado desde o início. O trauma o transformou em agressor.
Nada disso serve, de modo algum, como desculpa para o ghosting. Serve para entendermos melhor que, por mais que nos machuque, por uma espécie de justiça cósmica, quem pratica ghosting já está inevitavelmente em grande sofrimento. A psicologia do ghosting revela que é preciso um nível incomum de dor para gerar alguém que machuca os outros.