Eu vou sobreviver

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Em outubro de 1976, uma das maiores músicas pop do século 20 foi ouvida pela primeira vez: I Will Survive, a eterna afirmação de resistência, cantada por Gloria Gaynor. Inicialmente, foi lançada como um lado B, mas logo se tornou um dos singles mais vendidos de todos os tempos, graças ao seu poder de abordar algo universal na alma humana, provando que a arte é mesmo uma terapia.  

Gloria Gaynor não compôs a música. A letra, na verdade, tinha sido escrita por Dino Fekaris, um compositor profissional um tanto bem-sucedido, mas desgostoso na época, pois havia acabado de ser dispensado pela Motown Records.   

A canção fala, em parte, de ser prejudicado ou desvalorizado. Mas não trata exatamente do mal que os outros fizeram a nós. É uma avaliação honesta da forma como deixamos que fizessem aquilo conosco, porque fomos nossos próprios defensores de forma insuficiente. 

 

"... No início senti medo, fiquei paralisada 

Ficava pensando que nunca conseguiria viver sem você ao meu lado..." 

  

O outro, definitivamente, nos magoou, mas o problema mais profundo é que não soubemos como nos valorizar o suficiente, ter confiança e autocompaixão para impedir que ele fizesse isso. Ela achava que desmoronaria e morreria por um bom motivo: porque é isso que fizemos tantas vezes antes. 

A beleza da música é que ela não nega que fomos cúmplices do mau tratamento que, tradicionalmente, recebemos. Nós nos identificamos com sua heroína da música porque ela é suficientemente franca para admitir que foi a arquiteta da própria humilhação. 

Gloria se identifica com nosso lado temeroso e excessivamente obediente, mas é porque ela entende tão bem nossas tendências submissas e dúvidas sobre a ficar ou partir de um relacionamento ou situação. Com isso, seu profundo encorajamento de dizer um sonoro “que se dane” ao mundo chega a ser estimulante. Esta não é a voz de alguém que nunca foi explorada, é a mensagem de uma pessoa que, mesmo fraca ou tímida, não deixará mais que seus medos dominem sua vida. 

Resistência não significa afirmar que sei que vou sobreviver. Quando cantamos esta música na pista de dança ou mesmo em casa, não sabemos realmente o que acontecerá conosco. Em muitas situações, nossos medos ainda estão em carne viva. Podemos ter sido intimidados em nossos relacionamentos ou na infância, ter acabado de autorizar um advogado a iniciar o processo de divórcio ou ter escrito um e-mail importante a um colega. 

Quando cantamos, alegremente, o refrão, estamos dando um grande e precioso salto de fé. Estamos finalmente insistindo que nossa capacidade de enfrentamento é maior do que nosso passado ou as nossas crenças nos levaram a imaginar. 

Gloria está nos apoiando para atingirmos o que podemos chamar de “velocidade de escape emocional”. Ela está inculcando – com o incentivo de acordes enganosamente simples, mas hipnotizantes – o estado mental no qual podemos aguentar enfrentar aqueles que nos magoaram.  

Uma atitude de resistência nunca é tudo de que precisamos. Para que as coisas saiam bem, também precisamos usar reservas de conciliação, concessão, aceitação e tolerância, ou seja, as virtudes maduras pelas quais coisas genuinamente boas continuam existindo em um mundo imperfeito. No entanto, não estamos neste ponto; ainda precisamos nos preparar para uma luta. 

É aí que a voz de Gloria Gaynor não é apenas um exemplo magnífico na grande história do pop. Ela é, para nós a voz que nossa alma precisa ouvir para nos salvar do lado fraco, mas angustiantemente familiar, de nossa natureza que muitas vezes desiste cedo demais de nossa esperança de liberdade.  

 

Texto: The School of Life

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