Um exercício de autocompaixão

Quando falhamos e fracassamos em nossa vida (um projeto no trabalho deu errado ou um relacionamento chegou ao fim), nosso humor corre o risco de ficar entre dois extremos: autopiedade por um lado, onde a culpa é exclusivamente dos outros e nos preenchemos de uma noção de sermos inocentes e puros, e, por outro lado, autoflagelo, em que nos massacramos, culpamos a nós mesmos e constantemente repetimos provas de nossa desobediência e pura estupidez.

O autoflagelo é, para muitos de nós, o maior risco. Para sobreviver nas condições de alta pressão da modernidade, temos poucas opções a não ser crescer e nos render à autocrítica, a rapidamente aprender com nossos erros e identificar nossas falhas. Aprendermos a assumir responsabilidade e sermos abertos ao feedback, mas ficamos tão bons nisso que nos arriscamos a virar presas de uma versão excessiva da autocrítica: uma forma de autoflagelo que não nos ensina nada de novo e só inspira depressão e baixo desempenho. Levamos a autocrítica longe demais quando ela não tem mais nenhum efeito sobre nosso nível de conquista, quando ela simplesmente esgota nosso ânimo e nossa vontade de sair da cama. 

A essa altura, precisamos separar um tempo para provar um estado emocional do qual muitos de nós são profundamente desconfiados: a autocompaixão. Desconfiamos e ficamos nervosos porque estamos excessivamente familiarizados com os riscos associados à autopiedade. Somos criaturas assustadas procurando sinais de que ficamos “moles”. A maioria de nós desiste dos últimos traços de autopiedade em algum ponto no final da adolescência, mas a condição permanece nítida. Estamos cientes de que, ao sermos gentis com nós mesmos, podemos mimar nossas personalidades nada merecedoras, ignorar sinais valiosos e arruinar nosso potencial.

Como a depressão e o autodesprezo também são inimigos sérios, precisamos reaprender o valor de momentos calculados de autocompaixão e valorizar o papel do cuidado próprio em uma vida boa, ambiciosa e frutífera.

Para tal, devemos fazer um Exercício de Autocompaixão, uma Meditação estruturada (de cerca de 15 minutos) em que invertemos uma sequência de pensamentos que corrigem as piores autoacusações de nossos momentos mais tristes. Por um período, até ficarmos mais fortes, juramos adotar uma perspectiva totalmente gentil com relação a nossos reveses. Falhamos, mas a conclusão não precisa ser a de que somos idiotas. As seguintes ideias podem ser ensaiadas: 

1. A tarefa era muito difícil

Somos tão apaixonados pelo sucesso que não percebemos a escala dos desafios que comumente damos a nós mesmos. Não há nada remotamente normal no que estamos tentando atingir.

2. Não fomos adequadamente preparados pela nossa história

Precisamos considerar nossa biografia em sua totalidade; não apenas este ou aquele revés, mas a trajetória de nossa vida. Coisas que aconteceram a nós pelas mãos dos outros podem nos ajudar a explicar nossos fracassos atuais. Não fomos responsáveis por tudo. Somos parcialmente vítimas de coisas além de nosso controle. Não estamos no domínio completo de quem somos e, portanto, não deveríamos ser responsabilizados por tudo.

3. O fracasso não é peculiar

A natureza da tarefa significa que sempre há uma alta possibilidade de falha. Raramente se fala do fracasso. A mídia fala mais dos sucessos (ou dos fracassos retumbantes), mas, estatisticamente, o que aconteceu conosco sempre seria o mais provável. “Homens melhores conseguiram antes de você”, disse Matthew Arnold, e pessoas ainda mais talentosas do que você não conseguiram. Não é que você seja tolo: era uma montanha a escalar.

4. A sorte é real

Pessoas duras e autocríticas não se permitem acreditar na sorte, assumem responsabilidade por tudo. Acham que os vencedores fazem a própria sorte, mas não é isso. A sorte é um recurso genuíno da existência. Estamos nos privando de um consolo legítimo e justo ao acreditarmos que estamos totalmente no controle – e, portanto, somos totalmente culpados ao colidirmos. Não somos perdedores em um jogo justo, somos infelizes em um universo azarado e, muitas vezes, altamente aleatório.

5. Seu valor não depende de coisas externas

Sua amabilidade essencial não deve estar em jogo nesta questão. Você não é apenas suas conquistas. Status e sucesso material são um lado seu, mas também há vários outros lados. Quem o amou na infância sabia disso e, em seus melhores momentos, ajudou você a sentir isso. Adote uma relação maternal consigo mesmo: ensaie as vozes internalizadas de todos aqueles que têm sido gentis com você e mergulhe em um amor absoluto intrínseco, independente das conquistas. Imagine uma figura materna. Permita-se escutar vozes às quais não deu ouvidos durante anos. Talvez não seja um amor incondicional, mas sim que existam outras condições para o amor, nas quais você se sai muito bem. Você é bondoso, interessante, sagaz, sensível, ousado, imaginativo... A sociedade moderna enfatizou demais algumas condições para o amor, alinhando-as em uma gama estreita de vitórias. Você deve ter permissão para existir e se tolerar sem essas medalhas.

6. Há uma saída que você não está enxergando agora

Você está exausto e assustado. Não consegue ver como pode seguir em frente. Isso não é verdade, é apenas a sensação que dá quando a autocrítica destrói cada pedacinho de confiança. Você precisa de tempo sem pressão. Precisa dormir e se alimentar. Ficamos bons demais em “ceder o caso aos acusadores”. Cale a voz da Obrigação e da Raiva. 

A autocompaixão é diferente de dizer que você é inocente: é tentar ser muito gentil e compreensivo sobre por que você fracassou. Você foi tolo, mas merece existir com dignidade e ser entendido e perdoado. Este é um direito fundamental para todos nós.

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