Um exercício de autocompaixão

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Quando falhamos e bagunçamos nossas vidas (talvez com um projeto no trabalho dando errado ou um relacionamento terminando), nossos humores correm o risco seguir para dois extremos: por um lado, a autopiedade, em que a culpa é exclusivamente de todos os outros e nós nos deixamos dominar pela ideia de sermos inocentes e puros. Por outro lado, o autoflagelo, em que culpamos apenas a nós mesmos, nos autodestruímos e martelamos constantemente provas de nossa absoluta irregularidade e estupidez.

Para muitos de nós, o autoflagelo é o maior risco. Para sobreviver nas condições de alta pressão da modernidade, temos poucas opções a não ser crescermos sendo extremamente autocríticos, aprendendo rapidamente com nossos erros e fazendo um balanço de nossas deficiências. Aprendemos a assumir responsabilidades e a estar abertos ao feedback. Mas somos tão bons nisso que corremos o risco de nos tornarmos vítimas de uma versão excessiva da autocrítica: uma forma de autoflagelo que não nos ensina nada de novo e inspira apenas depressão e mau desempenho. Levamos a autocrítica longe demais quando ela não produz mais nenhum efeito sobre o nosso nível de realização, quando simplesmente nos desanima e nos deixa sem vontade de sair da cama.

É neste momento que precisamos arranjar algum tempo para experimentar um estado emocional pelo qual muitos de nós nutrimos profunda desconfiança: a autocompaixão. A desconfiança existe porque somos nervosamente familiarizados com os riscos associados à autopiedade. Somos criaturas assustadas sempre à procura de sinais de que nos tornamos moles. A maioria de nós desistiu dos últimos traços de autopiedade em algum momento do final da adolescência, mas a condição permanece viva. Temos consciência de que, sendo gentis com nós mesmos, podemos nos satisfazer demais com nossas personalidades inadequadas, perder insights valiosos e destruir nosso potencial.

Como a depressão e a autodepreciação também são inimigos importantes, precisamos reaprender o valor de momentos calculados de autocompaixão. Precisamos valorizar o papel do autocuidado em uma vida boa, ambiciosa e frutífera.

Para isso, devemos realizar um exercício de autocompaixão, uma meditação estruturada (com duração de 15 minutos ou mais), no qual realizamos uma sequência de pensamentos em nossas mentes que corrigem as piores auto-acusações de nossos momentos mais tristes. Por um tempo, até ficarmos mais fortes, nos comprometemos a adotar uma perspectiva inteiramente gentil sobre nossos contratempos. Nós falhamos, mas a conclusão não precisa ser que somos idiotas.

Ter autocompaixão é diferente de dizer que somos inocentes. É tentar sermos gentis e compreensivos quanto ao motivo pelo qual falhamos. Fomos tolos, mas merecemos existir com dignidade e sermos compreendidos e perdoados. É um direito fundamental para todos nós.

 

Texto do The Book of Life

Tradução de Cássia Zanon

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