Se o pior dos piores acontecer...

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Nós tememos muitas coisas: a desgraça, doenças, violência, nossa mortalidade, sofrimento e a morte de quem amamos... Quando somos confrontados por esses medos, as pessoas por gentileza costumam nos estimular a pensar nos melhores cenários.

É um movimento bem-intencionado, mas que de maneira não intencional, deixa nossos medos crescendo, nos enchendo de pavor e às vezes parecendo muito maiores do que deveriam. Assim, descrevemos aqui um movimento oposto: encarar nossas angústias diretamente nos olhos, nos negando a sermos intimidados por elas e examinando-as detalhadamente para eliminar seu poder debilitante, em busca de uma vida mais serena.

Fazer isso pode nos levar a uma importante percepção: nós somos capazes de dar conta – mesmo se o pior acontecer. A seguir, alguns convites para refletir sobre coisas assustadoras, não para nos deprimir, mas para nos emprestar uma noção otimista e leve da nossa resiliência e adaptabilidade.)

 

Se o pior acontecer...

... Vou aprender que tenho muito menos amigos, mas os que restaram serão os verdadeiros. Serão aqueles capazes de ver o meu eu genuíno além do meu status social. 

 

Se o pior acontecer...

... seguir o caminho seguro, respeitável e de prestígio não será mais uma opção. Com muito menos a perder, finalmente terei a oportunidade de explorar as ocupações mais arriscadas, porém mais gratificantes, que sempre desejei de alguma forma, mas que era socialmente ansioso demais para experimentar.

 

Se o pior acontecer...

... Aprenderei a medir meu valor segundo meus próprios padrões, em vez dos caprichos e aplausos da multidão. Terei uma noção de mim além do julgamento alheio.

 

Se o pior acontecer...

... passarei a olhar com nova admiração e humildade para a tranquilidade sem pressa, o estoicismo natural e a resiliência dos animais.

 

Se o pior acontecer...

... aprenderei a contemplar minhas tristezas do ponto de vista de uma nebulosa distante e reconhecerei minha vida como a coisa insignificante e pequena que realmente é e sempre foi.

 

Se o pior acontecer...

... vou desenvolver uma gratidão adequada por todas as coisas aparentemente menores – e cada dia que se desenrolar sem mais uma catástrofe será reconhecido como a bênção que realmente é.

 

Se o pior acontecer...

... compreenderei que a vida não é algo que pode ser moldado em uma entidade totalmente sem falhas e sem erros, mas uma construção sempre imperfeita, necessariamente instável, repleta de marcas e defeitos – que, no entanto, possuem sua própria beleza e dignidade.

 

Se o pior acontecer...

... aprenderei distinguir entre o que é realmente sério e que valha a pena lamentar e o que é apenas um incômodo passageiro. Em muitas situações, serei infinitamente mais calmo.

 

Se o pior acontecer...

... meu fracasso estimulará outros a compartilharem histórias de suas próprias tristezas, confusões e humilhações – e, juntos, enfrentaremos o sofrimento que muitas vezes sofremos injustamente sozinhos.

 

Se o pior acontecer...

... conhecerei o sentimento de liberdade interior concedido a todos os que pararam de tentar ser respeitáveis.

 

Se o pior acontecer...

... deixarei de sentir que havia apenas um caminho certo e uma maneira como as coisas deveriam ser. Jogarei o livro de regras fora – e aprenderei a fazer outros planos.

 

Se o pior acontecer...

... ficarei à mercê da misericórdia e da caridade alheias – e aprenderei o significado do amor verdadeiro: que é bondade feita livremente, sem qualquer expectativa de retorno.

 

Se o pior acontecer...

... eu voltarei à eternidade do silêncio da qual toda vida é apenas uma breve interrupção.

 

Se o pior acontecer...

... eu verei que a luta pela fama, o dinheiro e o sucesso era apenas uma tentativa condenada de compensar por um amor incondicional que foi desejado, mas negado na infância. O desejo mundano dará lugar à melancolia e ao luto.

 

Se o pior acontecer...

... vou descobrir que o que faz a vida valer a pena não é quanto tempo ela dura, mas com que intensidade e gratidão ela é vivida.

 

Se o pior acontecer...

... deixarei de ter tanto medo de olhar para dentro – e talvez, um dia, dê uma chance à psicoterapia.

 

Se o pior acontecer...

... vou me recolher na cama e, sob a proteção das cobertas, chorar de maneira consoladora e incontrolável durante horas, sem segurar, dando espaço à tristeza como quando era criança – pegando cada onda de sofrimento até não conseguir mais soluçar.

 

Se o pior acontecer...

... vou tocar as músicas mais tristes que estão esperando por mim esse tempo todo.

 

Se o pior acontecer...

... saberei que ninguém pode tirar de nós as lembranças de quem amamos – e que, enquanto mantivermos alguém em nossas mentes, essa pessoa é imortal.

Se o pior acontecer...

... o pior de verdade, toda raiva, tristeza, ansiedade e todo medo estariam no fim – e nós, finalmente, como dizem tão lindamente as orações, ficaremos em paz.

 

Texto do The Book of Life

Tradução: Cássia Zanon

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