Revisitando as Nossas Vozes Internas

Em alguma parte da nossa mente, longe do dia a dia, há um juiz. Ele observa o que fazemos, estuda como nos saímos, examina o efeito que temos nos outros, rastreia nossos sucessos e fracassos – e, uma hora, dá o veredito. Este julgamento é tão significativo que permeia toda a nossa noção de quem somos. Ele determina nossos níveis de confiança e autocompaixão, dá uma sensação de que somos pessoas valiosas ou o contrário, de que não deveríamos existir. O juiz é responsável pelo que chamamos de nossa autoestima.

Seu veredito é mais ou menos amoroso, mais ou menos entusiasmado, mas não é dado de acordo com algum livro de regras ou estatuto. Duas pessoas podem ter níveis tremendamente diferentes de autoestima embora tenham feito basicamente as mesmas coisas. Alguns juízes simplesmente parecem mais predispostos a nos dar uma visão essencialmente leve, acolhedora, agradecida e generosa de nós mesmos. Outros nos estimulam a ser tremendamente críticos, muitas vezes decepcionados e, outras, perto do desgosto.

É simples rastrear as origens do juiz interno: é uma internalização das pessoas que um dia estiveram fora de nós. Absorvemos os tons de desdém e indiferença ou de caridade e acolhimento que ouvimos em nossos anos de formação. Nossas mentes são espaços cavernosos e praticamente todos temos vozes que ecoam dentro deles. Às vezes, uma voz é positiva e benigna, incentivando para que percorramos os metros finais: “você está quase chegando, continue, vamos lá”, mas o mais frequente é que essa voz interna não seja nada gentil. É derrotista e punitiva, apavorante e humilhante. Ela não representa nada parecido com nossas melhores visões ou capacidades mais maduras. Percebemos que dizemos: “Você me dá nojo, as coisas sempre dão errado com alguém como você”.

Uma voz interna sempre foi uma externa que transformamos, imperceptivelmente, em nossa. Absorvemos o tom de um cuidador gentil e bondoso, que ria gostosamente de nossos pontos fracos e tinha apelidos carinhosos para nós, ou a voz de um pai incomodado ou raivoso; as ameaças assustadoras de um irmão mais velho que queria nos derrubar; as palavras de um valentão da escola ou um professor que parecia impossível de agradar.

Absorvemos essas vozes porque, em alguns momentos cruciais no passado, elas soaram muito chamativas e irresistíveis. As figuras de autoridade repetiram suas mensagens até elas se embrenharem em nossa própria forma de pensar – para o bem e para o mal.

Nosso nível de amor próprio tem muitas consequências em nossa vida. Pode ser tentador supor que sermos duros com nós mesmos, embora doloroso, seja bastante útil. A autoflagelação pode parecer uma estratégia de sobrevivência que nos afasta dos muitos perigos da indulgência e da complacência, mas há perigos iguais, se não maiores, em uma contínua falta de solidariedade por nossa própria dificuldade.

Afetados pela falta de amor próprio, os relacionamentos românticos se tornam quase impossíveis, porque uma das principais exigências de uma capacidade de aceitar o amor do outro é um grau confiante de afeição por nós mesmos, construído ao longo dos anos, principalmente na infância. Precisamos de um histórico de sentimento de que, de alguma forma básica, merecemos amor para não reagirmos obtusamente aos afetos demonstrados por possíveis parceiros adultos. Sem uma quantidade decente de amor próprio, a gentileza do outro sempre nos parecerá enganosa ou falsa, ou até estranhamente ofensiva, porque sugere que ele nem começou a nos entender, de tão diferentes que são nossas avaliações relativas sobre o que por acaso merecemos. Acabamos decepcionando, de forma autodestrutiva, mas inconsciente, o amor intolerável e estranho que nos foi oferecido por alguém que claramente não faz ideia de quem somos.

 

Mudar a Voz Interna

A esta altura, pode ser tentador dizer que não deveríamos nos julgar de forma alguma, simplesmente aprovar e amar, mas devemos determinar que uma boa voz interna é basicamente como um juiz verdadeiramente decente (e tão importante quanto ele); alguém que precisa estar ali para separar o bom do ruim, mas que possa sempre ser piedoso, justo, com um entendimento preciso sobre o que está acontecendo e interessado em nos ajudar a lidar com nossos problemas. Não é que precisemos parar de nos julgar, mas devemos aprender a ser melhores juízes de nós mesmos.

Melhorar a forma como nos julgamos envolve, em parte, aprender – de maneira consciente e deliberada – a falarmos com nós mesmos de uma forma nova e diferente, o que significa nos expor a vozes melhores. Precisamos ouvir vozes construtivas e gentis com frequência e em relação a questões complicadas o bastante para parecerem respostas normais e naturais – para que, um dia, elas se tornem nossos próprios pensamentos.

A outra grande estratégia para mudarmos as vozes em nossas cabeças é tentarmos nos tornar nossos próprios amigos imaginários. Parece estranho, inicialmente, porque naturalmente pensamos em um amigo como sendo outra pessoa, não uma parte de nossa mente, mas há valor no conceito porque sabemos como tratar nossos amigos com uma empatia e criatividade que não aplicamos a nós mesmos. 

O bom amigo sabe que fracassos não são, na realidade, raros. Ele traz, como ponto inicial, sua própria e nítida experiência de errar como principais referências, constantemente nos diz que nosso caso específico pode ser único, mas que a estrutura geral é comum à humanidade. As pessoas não falham apenas às vezes; todos erram, mas não ficamos sabendo disso.

É irônico, mas essencialmente esperançoso, que normalmente saibamos como ser um amigo para quase estranhos melhor do que para nós mesmos. A esperança está no fato de que já temos as habilidades pertinentes da amizade, mas ainda não as direcionamos para quem provavelmente mais precisa delas – nós mesmos, é claro.

 

Texto do The Book of Life

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