Preparando-se para o Desastre

Nós podemos não pensar nisso em termos tão inocentes, mas nós estamos suscetíveis a ter – em algum lugar do nosso inconsciente – um roteiro de como nossas vidas devem acontecer.

Primeiro virá a educação, com amizades profundas, momentos de autodescoberta intoxicante, ternos primeiros amores e, às vezes, pura e simples diversão.

Então virá a carreira, algo que dê um salário, mas que não seja feito apenas pelo dinheiro. Nós seremos competentes, respeitáveis e prestigiados pela intensidade dos nossos esforços.

Paralelamente virá um relacionamento importante, provavelmente um casamento. A união durará para sempre e será marcada por satisfação mútua, amizade sincera e sexo frequente e apaixonado. Também haverá crianças, oferecendo a nós a oportunidade de criar uma pequena pessoa grata e adorável, o melhor de cada um dos pais, que veremos se tornar um adulto admirável e motivado.

Com os avanços da ciência, nós vamos levar uma vida ativa e sem dor, com saúde física e mental, até os oitenta anos. Nossos pais também terão morrido em uma idade avançada e, quando chegar a nossa hora, o fim será rápido e indolor.

Isso é, mais ou menos, o roteiro que nos é dado por uma sociedade avançada, secular e consumidora – e não surpreende que, em muitos momentos, nós queiramos segui-lo e confiemos nele completamente.

Mas a verdade, nunca afirmada como uma regra geral, nunca insistida com tons apropriados de solenidade melancólica, é que ninguém atravessa a vida sem um grande evento fora do roteiro. Algo, em algum lugar, dará catastroficamente errado. Não potencialmente, não incidentalmente, mas necessariamente, por causa da estrutura da existência humana e da nossa terrível exposição a erros, acidentes, loucura e doenças.

Alguém muito importante para nós morrerá muito antes do que deveria, em circunstâncias horríveis e completamente inesperadas.

Nós vamos sofrer uma reviravolta significante em nossa vida profissional, provavelmente desencadeada por uma insensatez de nossa parte, uma falha arraigada na nossa personalidade ou uma colisão com um dos cantos muito afiados do ciclo de negócios.

Um relacionamento importante dará errado: um filho desenvolverá uma queixa importante, alguém em quem confiávamos completamente trairá todas as expectativas que colocamos nele.

Doença e morte aparecerão de repente: um derrame no saguão do aeroporto, células cancerígenas em um corpo jovem, uma hemorragia que veio pelo menos vinte anos cedo demais.

As variantes são tão infinitas quanto sinistras. Nós não podemos saber o que será exatamente; o que é certeza é que será algo; um evento desastroso que nos parará, partindo nossos corações e nos fazendo questionar todos os nossos pressupostos. A única garantia é que não existirá vida sem uma calamidade. E, quando ela acontece, é a resiliência que distingue aqueles que são aniquilados dos que conseguem seguir em frente mesmo quando as coisas são difíceis, aceitando reviravoltas como algo normal e lembrando-se de que a natureza humana é, no fim, encorajadoramente resistente.

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