Por que nos apaixonamos por certos tipos de pessoas

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INTRODUÇÃO

É tentador descrever as atrações instintivas que sentimos por pessoas específicas simplesmente como misteriosas. Parece, como se diz, “romântico” não analisar nossos sentimentos e simplesmente seguir seus preceitos com espanto, sem pensar.

Mas nossos sentimentos não são a bússola misteriosa, porém inteligente, que gostaríamos que fossem. Na maior parte das vezes, eles são simplesmente enganosos. A sensação de se estar apaixonado por alguém raramente é um prelúdio para o contentamento a longo prazo. Se quisermos melhorar nos relacionamentos, devemos tentar examinar os apelos do amor romântico racionalmente. Não se trata de abandonar o instinto, apenas de aperfeiçoá-lo.

O aspecto mais característico do nosso instinto no amor é a sua particularidade. Nós não somos capazes de nos apaixonar por qualquer um. Somos fortemente liderados por nossos “tipos”. Podemos rejeitar muitos candidatos que, no papel, pareceriam perfeitos para quem vê de fora. Podemos não ser capazes de explicar muito mais sobre suas inadequações do que dizer fracamente que elas não “parecem certas”. Por outro lado, podemos ser fortemente impelidos a outros candidatos, esses menos claramente adequados, por razões totalmente além do nosso controle consciente. Somos extremamente e fascinantemente exigentes.

Por que, então, nos apaixonamos por pessoas específicas (e não por outras)? Por que temos os tipos que temos? O que orienta nossas atrações? Podemos identificar três componentes:

1: UM INSTINTO DE COMPLETUDE

Uma das forças mais poderosas dentro do amor é o instinto de completude. Somos, todos, radicalmente incompletos: falta a nosso caráter uma gama de qualidades – psicológicas e também físicas. Pode nos faltar calma, criatividade, conhecimento prático, inteligência, força, sensibilidade… É como se, em algum lugar dentro de nós, essa incompletude seja reconhecida e nos faça sentir atração sempre que entramos na órbita de alguém que possua uma qualidade complementar. Nós buscamos, através do amor, aproveitar um defeito e nos completarmos.

Como todos temos tipos muito diferentes de incompletude, parece lógico que acharemos atraentes pessoas muito diferentes. Alguns candidatos terão qualidades que não nos abalarão – simplesmente porque já temos aquilo. Talvez eu não precise (por exemplo) de alguém tão calmo quanto eu. As coisas poderiam ficar perigosamente tranquilas demais. Talvez precisemos, digamos, de uma injeção de criatividade e irreverência. Nossos gostos serão tão variados como as nossas deficiências.

Este mecanismo de atração no amor é semelhante o mecanismo de atração que podemos ter quanto a estilos de arquitetura e design. Quando se trata de edifícios e interiores, também funcionamos com um instinto de completude. Os lugares que chamamos de “bonitos” são (como as pessoas que chamamos de “atraentes”) muitas vezes aqueles que têm qualidades que desejamos mas que ainda não temos o suficiente. Pense em dois edifícios muito diferentes:

Muito provavelmente, nos sentiremos atraídos por um ou outro com base em uma qualidade que não consideramos possuir o bastante em nós mesmos. Pessoas que sentem uma falta intensa de exuberância, dramaticidade e extravagância (e são oprimidas pela monotonia e a sobriedade) podem se sentir atraídas pela Peterskirche vienense. Aqueles que sentem ansiosamente falta de tranquilidade, coerência e serenidade (e têm muito caos, atividade e intensidade) vão se sentir movidos pela simplicidade estéril da Igreja Moritz, em Augsburg.

2: O INSTRUMENTO DE APROVAÇÃO

Há um segundo instinto que nos leva ao amor: o instinto de aprovação. Temos muitos problemas e sentimentos por conta dos quais nos sentimos solitários, incompreendidos e que a maioria das pessoas não entende ou não tem interesse. Talvez não gostemos de certas pessoas que sejam populares de um modo geral, talvez fiquemos ansiosos em relação a coisas que deixam outros cheios de si, talvez tenhamos tristezas que ninguém parece compartilhar, ou empolgações e interesses que não ecoem em outros.

Somos então fortemente atraídos por pessoas que parecem compreender nossos aspectos solitários. Nós os amamos por sua capacidade de aprovar traços frágeis, isolados e pouco comuns. Eles nos “captam”, ao contrário das legiões de insensíveis que não conseguem fazer isso.

Quando finalmente estamos com o candidato aprovador ideal, nos sentimos em uma pequena conspiração contra o resto do mundo. Não precisamos explicar muita coisa a respeito de nós mesmos. Eles simplesmente sabem. Eles “captam” as coisas rápido, sem que seja preciso falar. Eles leem as nossas almas – e, portanto, não precisamos detalhar tudo com a dificuldade de sempre. Nosso amor é um dividendo de gratidão por sermos magicamente compreendido.

Talvez a gente realmente goste de montar quebra-cabeças – um interesse que é motivo de deboche dos amigos mais intelectuais. Ou haja algo no sexo que não tenhamos nos atrevido a compartilhar com parceiros do passado. Ou tenhamos simpatia por algum político que todos parecem desprezar. Ou realmente amemos, mas também nos sintamos sufocados por nossa mãe – e isso sempre tenha parecido estranho para as pessoas. Ou ninguém parece nos entender e perdoar pelo quanto nos estressamos com tarefas administrativas. Ou costumávamos adorar rastejar para baixo da cama quando crianças – e ainda gostamos dessa parte de nós, mas não achamos fácil abri-la para o mundo. Tudo isso o parceiro ideal vai – por conta própria – simplesmente saber.

3: O INSTINTO DA FAMILIARIDADE

A maneira como abordamos o amor na vida adulta é extremamente moldada pela forma como experimentamos o amor quando crianças. Na vida adulta, nos sentiremos atraídos por pessoas que nos lembrem – mais ou menos inconscientemente – das pessoas que amamos quando crianças. Essa ideia é desconcertante por conta de um sentimento natural de repulsa ao pensar em figuras parentais como sexuais. Mas não é essa a questão.

Não é que nos sintamos atraídos por pessoas que sejam parecidos com nossos pais em todos os sentidos. É só que, com uma simetria desconcertante, algumas das qualidades que consideramos mais atraentes em adultos são aquelas que costumavam ser evidentes em nossos cuidadores da infância. O afeto de nossos parceiros pode acabar marcado por um sentimento de familiaridade. Nos braços deles, em um sentido emocional, nos sentimos em casa.

E, sem que se pense muito nisso, eles às vezes nos chamam carinhosamente de “bebê”.

Texto do The Book of Life

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