Por que a foto histórica do Nascer da Terra é importante

É, talvez, a foto mais famosa já tirada. Aconteceu quase por acidente, quando, na manhã da véspera de Natal de 1968, um dos astronautas a bordo do ônibus espacial Apollo 8, Bill Anders, tirou a mira da câmera no suposto objeto da missão – a Lua – e focou em um objeto esférico, azul e brilhante que ascendia sobre o horizonte lunar. Era a Terra, nosso insubstituível lar planetário. De repente, a humanidade conseguiu enxergar seu habitat com um olhar até então reservado para a entidade que chamamos de Deus.

Foi um momento que convidou a uma mudança fundamental de perspectiva e continua nos oferecendo isso. Embora a teoria de que a Terra fosse uma esfera tivesse sido proposta por pensadores da Grécia Antiga de Pitágoras em diante, tal pensamento permaneceu teórico por outras centenas de anos e persiste até hoje, enquanto percorremos nossas ruas, montanhas e mares, basicamente implausível.

Ainda que a Terra pareça inesgotavelmente ampla para nós, repentinamente ela surgiu como verdadeiramente é: apenas mais um planeta médio em um sistema solar, em uma galáxia, em um incalculavelmente infinito universo. Pode parecer longe, para um habitante da Terra, viajar de Nova York para Sydney, ou de um polo ao outro, mas, no grande esquema das coisas, essas rotas são como rastros de uma formiga.

 

A foto, batizada de Earthrise (ou “nascer da Terra”), permitiu que sentíssemos uma espécie de carinho, ou mesmo amor, pelo planeta. Visto do espaço, nós o enxergamos protegido de terríveis bombardeios de meteoritos e raios solares e cósmicos e transformado em habitável por uma membrana infinitesimalmente fina – que, agora, estamos destruindo. Nossa atmosfera rica em oxigênio – a diferença entre um planeta infértil e deserto como Marte e nosso lar abundante, respirável e farto – aparece na foto como uma auréola incrivelmente vaga.

Daqui, é possível nos sentirmos muito mais generosos com relação ao projeto humano do que o normal. Podemos sorrir gentilmente para a humanidade e talvez também admirá-la um pouco. Os defeitos de todos esvanecem diante de tanta majestade. Somos levados a ser mais pacientes e acolhedores com nossas companheiras formigas girando conosco na escuridão infinita. Poderíamos ter vontade de dizer a uma ou duas dessas formigas, em termos mais francos e diretos, o quanto gostamos delas.

 

No planeta, neste momento, bebês estão nascendo, adultos estão chorando até dormir, pessoas estão de joelhos esperando a redenção. Há luta, erro, bobagem e esperança. A foto nos compele a uma forma superior de bondade e perdão. Provavelmente, não há um ser divino olhando por nós e nos ajudando: somos os únicos responsáveis por nós mesmos e por nosso frágil lar. Podemos ter de adotar, por conta própria, algumas das atitudes que um dia projetamos nas divindades.

Se surgisse uma nova religião, sem um deus, uma religião secular estruturada para nos lembrar de nossa necessidade de amar, ser gentis e perdoar, a foto do Nascer da Terra seria seu logotipo perfeito e sua imagem central. Mas, mesmo sem uma criação tão sofisticada, e talvez necessária, essa foto merece um lugar na parede da sala, em nossos protetores de tela e em nossas mentes, como um lembrete constante de nosso poder, nossa vulnerabilidade e nossa profunda responsabilidade com os outros.

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