O Trabalho Autêntico

Muitas vezes, questionamos, aflitos, o que deveríamos fazer com nossas vidas profissionais por causa de uma peculiaridade dolorosa de nossa mente: ela nos diz, com especial clareza, o que não gosta de fazer (mesmo se o trabalho for bem pago e tiver prestígio social), mas tende a ficar teimosamente confusa quanto ao que a satisfaria. Temos dentro de nós uma identidade profissional nata que exige fortemente o reconhecimento e, ainda assim, é extremamente vaga, tímida e difícil de conhecer.

A maioria das pessoas é forçada a tateá-la através de longas tentativas e erros acompanhados por auto-observação e reflexão, em vez de encontrá-la pronta assim que saímos da faculdade. Podemos ter de aguentar anos de confusão e uma percepção perturbadora de que não estamos usando nossos pontos fortes e interesses, mesmo que nossa consciência orientadora não saiba bem ainda no que realmente somos bons e interessados.

A meta, no entanto, é evidente desde o começo: deveríamos fazer um trabalho profundamente alinhado com nossos “eus” verdadeiros, que não se trata meramente de ganhar a vida, que – embora às vezes possa ser muito difícil e frustrante – atenda aos diferentes movimentos e características de nossa alma, que, como dizemos, pareça adequadamente autêntico.

Não pode haver generalizações sobre o que o trabalho autêntico realmente exigirá de nós. Um emprego pode, por exemplo, exigir que nos atenhamos a um conjunto de problemas matemáticos quase intratáveis por muito tempo. Isso pareceria horrível para algumas pessoas, mas podemos gostar da sensação longa e lenta de realizar uma grande tarefa, tentando diversas opções antes de chegar a uma solução especialmente boa. Entretanto, talvez o trabalho autêntico envolva fazer muitas intervenções financeiras urgentes e decisivas em um ambiente acelerado e um tanto caótico. Embora isso possa levar alguns ao pânico, circunstâncias mais calmas seriam infernais para outros.

Outra probabilidade é que, para parecer autêntico, precisamos que nosso trabalho envolva um papel de subordinação e apoio, em que possamos admirar e ser leais a outra pessoa no comando – um prazer que possivelmente remete à satisfação que tínhamos quando éramos crianças em estar ao lado de um irmão mais velho, mandão, mas muito impressionante.

O que torna o trabalho autêntico não é um tipo em especial de tarefa, não tem nada a ver com fazer vasos ou ser carpinteiro (trabalhos muitas vezes associados superficialmente à ideia de autenticidade). O que torna o trabalho autêntico é o encaixe profundamente individual entre a natureza da nossa função e nossas aptidões e fontes de prazer.

Um dos benefícios de identificar o trabalho autêntico é que – enfim – ficaremos consideravelmente livres da inveja. Sempre haverá alguém com um emprego que pague melhor, que tenha um status público mais alto ou benefícios mais glamourosos, mas acabamos percebendo que não adianta ansiar por esse emprego, porque ele não se encaixaria no que conhecemos do timbre peculiar de nosso caráter.

O outro benefício de encontrar um trabalho que pareça autêntico é que ele muda nossa relação com o ideal moderno de atingir o equilíbrio entre “vida pessoal e profissional”. Há certo grau de pessimismo quanto ao trabalho dentro deste conceito moderno, por insinuar uma necessidade de proteger a vida, a parte preciosa, contra as exigências do trabalho, a força onerosa, mas o trabalho conectado de maneiras muito profundas com quem realmente somos não é o inimigo da vida: é o lugar onde naturalmente nos vemos querendo entrar para extrair algumas de nossas maiores satisfações.

 

Alain de Botton

 

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