O Sentido da Vida

Questionar de forma excessivamente aberta ou intensa o sentido da vida parece um passatempo peculiar, condenado e acidentalmente cômico. Não é nada que um reles mortal deva tentar ou consiga ir muito longe ao fazer. Pouquíssimas pessoas podem estar equipadas para assumir a tarefa e descobrir a resposta em sua própria vida, mas tal ambição não é para a maioria de nós. Vidas significativas são para pessoas extraordinárias: santos, artistas, acadêmicos, cientistas, médicos, ativistas, exploradores, líderes... Se descobríssemos o sentido, ele seria, desconfiamos, incompreensível; talvez algo escrito em latim ou código de computação, não seria nada que pudesse orientar ou iluminar nossas atividades. Sem reconhecer isso sempre, operamos com uma perspectiva nem um pouco generosa sobre o sentido da vida, mas, na verdade, o tema é para todos. Cada um de nós deve ponderar sobre, e definir, uma existência significativa. Não precisa haver nada proibitivo sobre o assunto. Uma vida significativa pode ter estrutura simples, ser pessoal, usável, atraente e familiar. Este é um manual para ela. Uma vida significativa está próxima, mas em alguns pontos é crucialmente diferente, de uma vida feliz. Eis alguns de seus ingredientes:

• Uma vida significativa se baseia, e exerce, diversas de nossas maiores capacidades; por exemplo, aquelas envolvidas por ternura, cuidado, conexão, autocompreensão, solidariedade, inteligência e criatividade.

• Uma vida significativa tem como alvo não tanto o contentamento cotidiano, mas sim a realização. Podemos estar vivendo uma vida significativa e, ainda assim, muitas vezes ficar de mau humor – assim como podemos nos divertir de forma superficial com frequência enquanto vivemos, na maior parte do tempo, sem significado.

• Uma vida significativa está atrelada ao longo prazo. Projetos, relacionamentos, interesses e compromissos se acumularão.

Atividades significativas deixam algo para trás, mesmo quando emoções que um dia nos impulsionaram até elas desaparecem.

• Atividades significativas não são necessariamente aquelas que realizamos com mais frequência; são aquelas às quais damos mais valor e, do ponto de vista de nossa morte, aquelas das quais sentiremos mais falta.

• A questão do que torna a vida significativa deve ser respondida pessoalmente, mesmo se nossas conclusões não forem marcadas por alguma idiossincrasia em particular. Não é possível depender dos outros para determinar o que será significativo para nós. O que chamamos de “crises de significado” são, em geral, momentos em que a interpretação de outra pessoa – talvez muito bem-intencionada – sobre o que pode ser significativo para nós nos faz confrontar uma percepção crescente de nossos gostos e interesses divergentes.

• Temos de refletir, por um processo de experiência e introspecção, sobre o que conta como significativo em nossa opinião. O prazer pode se manifestar imediatamente, mas nosso gosto pelo significado pode ser mais fugaz. Podemos ter vivido relativamente muito antes de identificarmos com segurança o que dá sentido à nossa vida.

Este livro considera diversas opções para descobrir onde o significado possa estar para nós, está ancorado em torno de uma discussão sobre oito atividades crucialmente significativas: amor, família, trabalho, amizade, cultura, política, natureza e filosofia. A maioria é conhecida; o objetivo aqui não é identificar fontes totalmente novas de significado, mas sim tentar evocar e explicar algumas escolhas conhecidas. As opções devem nos dar orientação, permitir que encontremos nossas próprias diferenças ou, quando discordamos, elaborar alternativas. Ao longo do caminho, esperamos ressaltar que nossas vidas são mais significativas – e com certeza mais capazes de sentido – do que poderíamos supor inicialmente. Aumentar a quantidade de significado em nossa vida não precisa envolver nenhum movimento radical para fora; ela quase certamente já tem aspectos tremendamente significativos nela, mas talvez não os estejamos valorizando, entendendo ou apreciando corretamente. É hora de transformar a busca por uma vida significativa de uma impossibilidade comicamente complexa em algo que possamos compreender, focar e no qual ter sucesso.

Texto do livro The Meaning of Life

Tradução Ligia Fonseca

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