O problema da festa da firma

Nas próximas semanas, a maioria das empresas estará se preparando para sua festa anual de fim de ano, gastando uma pequena fortuna em locais, cardápios, contas de bar e apólices de seguro de responsabilidade – tudo ostensivamente em nome da formação de equipes. No entanto, como qualquer um que já tenha participado de uma dessas festas pode dizer, esse raramente é o resultado. A probabilidade maior é de que acabemos com uma ressaca e um buraco inquietante onde deveria estar a nossa memória, mas raramente sentimos que formamos laços duradouros com nossos colegas (ou talvez tenhamos nos unido de uma maneira que preferimos esquecer…).



 

Por que as festas da firma fracassam em atingir seu suposto objetivo? Parte da culpa deve ser atribuída ao fator complicador do álcool, cujo efeito de soltar as inibições e as línguas tem tantas desvantagens quanto benefícios. Mas o problema vai mais além. Embutido no DNA de uma festa da firma está uma compreensão equivocada sobre o que realmente significa  e o que implica formar uma equipe.



 

Equipes são construídas, principalmente, na base do conhecimento: colegas que se conhecem e se entendem em um nível humano mais profundo. A formação genuína de uma equipe exige dois elementos simples: promover a inclusão e facilitar o compartilhamento. Promover a inclusão significa garantir que todos os membros de uma equipe se sintam igualmente acomodados e valorizados, independentemente de quem são ou do papel que desempenham. Facilitar o compartilhamento significa incentivá-los a oferecer informações sobre si mesmos – sua história, suas atitudes e crenças – e a ouvir as das outras pessoas.



Por outro lado, as festas da firma podem não incentivar tanto o vínculo como acabar por inibi-lo ativamente. É difícil se envolver em uma conversa sobre experiências e valores quando se está competindo com George Michael sendo tocado no volume máximo e meio alto depois de tomar vinho branco quente. Além disso, longe de aproximar as equipes, essas festas podem endurecer as divisões existentes. Pesquisas realizadas por acadêmicos das escolas de administração de Columbia e Wharton descobriram que festas da firma tendem a refletir “práticas, preferências e rituais do grupo dominante, o que pode passar uma ideia de falta de pertencimento ou inclusão a grupos que não compartilham dessas preferências… [deixando-os] se sentindo como estranhos em sua organização”. Ou, em outras palavras, as festas da firma são um pouco como os bailes da escola: ótimas se você faz parte da turma popular, nem tanto para os que estão fora dela.



 

A festa da firma pode ser uma espécie em extinção: com cada vez mais empresas optando a cada por renunciar ao estresse e às despesas. Se fôssemos repensar a festa da firma do zero, estaríamos menos preocupados com o tamanho da conta do bar ou com a setlist do DJ e mais interessados em garantir que todos se sentissem incluídos e fossem incentivados a participar de conversas sobre si mesmos e as coisas que importam.

 

Texto do The Book of Life

Tradução de Cassia Zanon

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