Insanidade Sã

Sermos completamente sãos não é algo que esteja dentro de nossas atribuições. Há muitos motivos fortes para perdermos o equilíbrio: temos histórias complexas, estamos rumando para a maior catástrofe, somos vulneráveis a perdas devastadoras, a vida amorosa nunca será totalmente boa, o abismo entre nossas esperanças e nossa realidade será profundo.

Nessas circunstâncias, deveríamos almejar não a sanidade, mas uma relação sábia, conhecedora e confiante com nossas diversas insanidades, ou o que poderíamos chamar de “insanidade sã”. O insano são é diferente do simplesmente insano na percepção honesta e precisa que tem sobre o que não está totalmente certo nele. Ele pode não ser totalmente equilibrado, mas não tem a bobagem adicional de insistir em sua normalidade. Consegue admitir, com graciosidade – e sem uma perda de dignidade em particular –, que, claro, é um tanto peculiar em diversos aspectos. Não se esforça ao máximo para esconder de nós o motivo pelo qual levanta à noite, em seus momentos de tristeza, quando a ansiedade bate ou durante ataques de inveja.

Em seus melhores momentos, ele pode ser incrivelmente engraçado sobre a tragédia de ser humano, exibe seus medos, dúvidas, anseios, desejos e hábitos que não pertencem à história que gostamos de contar a nós mesmos sobre a sanidade. Não faz confissões imediatas para se safar ou ser excêntrico; simplesmente percebe a falta de racionalidade em esperar ser razoável o tempo todo. Avisa os outros, com o máximo possível de antecedência, o que estar perto dele pode envolver – e pede desculpas imediatamente por suas falhas assim que se manifestam. Oferece a amigos e companheiros mapas precisos de sua loucura, o que é basicamente a coisa mais generosa que podemos fazer por alguém que tem de nos aguentar.

O são-insano dentro de nós não é uma categoria especial de quem tem problemas mentais: ele representa a possibilidade mais evoluída para um ser humano maduro.

Texto do The Book of Life

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