Faça da Eficiência um Hábito

Imagine alguém profundamente eficiente. A vida dessa pessoa está cheia dos melhores tipos de hábitos. Ela sempre faz uma pausa nas tardes de quarta-feira (a não ser que haja uma crise) e joga uma partida de tênis ou vai nadar. Sempre chega ao escritório às 8h30, sempre envia mensagens educadas de agradecimento quando as pessoas foram especialmente prestativas ou fizeram um grande esforço. Sempre separa um tempo para ajustar as linhas gerais de um documento antes de elaborar os detalhes. Sempre lê todas as mensagens para ver se há erros bobos de gramática ou conteúdo antes de enviar. Sempre arquiva documentos importantes assim que os recebe ou termina. Define dias para limpar todos os arquivos.

Tendemos a ver isso como um tipo de personalidade. Imaginamos que essa pessoa sempre foi assim; que, no jardim de infância, sempre tirava o sapato esquerdo antes do direito, que talvez seja um tanto admirável às vezes (sua vida profissional parece mais tranquila), mas também um pouco esquisita. Não dá para aprender com ela, só observar e admirar.

Na verdade, seres humanos geralmente são muito bons em adquirir hábitos. A questão é que diversas forças culturais conspiraram para fazer a formação de hábito parecer uma empreitada nada impressionante e empolgante. Às vezes, “hábito” até soa como uma palavra ruim – o nome de algo um pouco vergonhoso, chato e patético. A criatura de hábito é o homem de chinelos sentado perto da lareira fumando cachimbo, sempre lendo as mesmas páginas do jornal, sempre ligando o noticiário da TV no mesmo horário.
Para melhorar na formação de hábitos, precisamos...

Um: Ter uma opinião melhor sobre os hábitos
Não considere o hábito como o fechamento da porta da cadeia, o ocaso, o triunfo da média sobre o indivíduo. Alguns hábitos são patéticos, isso é verdade, mas o simples fato de que algo se torna rotineiro e, portanto, fácil e confiável não pode ser, por si só, uma coisa ruim. Idealmente, hábitos são glamurosos – se forem benéficos.

Dois: Defina um tempo
O poeta romântico William Wordsworth frequentemente escrevia sobre a beleza da lua.

Eis! Onde a Lua no céu
Navega com seu feliz destino;
Frequentemente se esconde dos olhos nus
Ou mal é vista,
Mas quando as nuvens se dissipam
Quão brilhante é sua luz!

Wordsworth com certeza esperava que outras pessoas dividissem suas experiências e olhassem para a lua mais frequentemente, que também pudessem, uma noite, caminhar pela colina (ou pelas ruas), olhar para cima e, quem sabe, ver a lua.
No entanto, Wordsworth não conseguiu fazer com que nos importássemos com a lua no longo prazo, porque não se interessou o suficiente na formação do hábito. Ele deixou nosso interesse pela lua ao acaso e à inclinação fugaz do indivíduo.

Por outro lado, o Tsukimi, o ritual japonês de observar a lua, é agendado para datas específicas: o 15º dia do oitavo mês e o 13º dia do nono mês (do calendário solar). Você não precisa esperar o humor estar certo, não tem de mergulhar por acaso em um livro de poesia e encontrar estímulo. O calendário cuida de tudo isso por você: você deve olhar atentamente para a lua de qualquer forma. A abordagem parece menos romântica, mas está muito mais alinhada com as necessidades da natureza humana. A realidade é que, na maior parte do tempo, precisamos de avisos e lembretes para fazer as coisas, e não devemos nos sentir estranhos ou envergonhados disso. Você define uma data, escreve na agenda. Marca um compromisso com a tarefa.
Se agendarmos ocasiões com regularidade suficiente, uma atividade se torna um hábito. Depois de cerca de seis semanas, paramos de precisar olhar para o calendário, lembramos de qualquer forma. Cada vez (depois dessa) fica mais fácil, mais natural de repetir, o comportamento fica firmemente incorporado.

Três: Alguém verifica
Essencialmente, hábitos são coisas ao redor das quais não precisamos fazer muito esforço, eles se tornam naturais, fazemos sem pensar muito, mas chegar lá pode envolver um exercício doloroso de vontade. Precisamos nos forçar a fazer as coisas contra a resistência interna. Precisamos nos forçar a sair da cama mais cedo ou a trabalhar offline. É tentador não fazer isso. É esforço demais, normalmente no exato momento em que nos sentimos esgotados.

Os militares há muito tempo exploram a ideia de verificação como parte da formação do hábito. Inicialmente, quando você ainda pode hesitar em passar sua roupa e desejar não precisar engraxar tanto os sapatos, alguém muito difícil de agradar é enviado para inspecionar, mas se presume que isso não precisará continuar para sempre. Em vez disso, a maioria das pessoas internaliza suas ambições. Assim, anos depois de entrar para a vida civil, eles continuam usando roupas extremamente bem passadas e sapatos lustrosos. O simples fato de se reportar a outra pessoa dá uma injeção minúscula, mas necessária, de determinação para aderirmos a algo no momento em que estamos mais vulneráveis a desistir. Desta forma, o hábito ganha um pouco mais de tempo para ser incorporado.

A solução para desenvolver hábitos parecerá um pouco estranha, mas tudo bem... Isso é um sinal de que estamos deixando para trás algumas visões um tanto erradas, mas muito disseminadas, sobre como as coisas são feitas. Em um mundo no qual a ineficiência é a norma, ser uma pessoa eficiente envolverá o aprendizado de algumas formas de se comportar que parecem bem estranhas.

 

Alain de Botton

 

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