Como ser um Bom Ouvinte

Uma das coisas mais gentis, úteis e interessantes que podemos fazer com outra pessoa é escutá-la bem. Mas escutar bem envolve mais do que apenas prestar atenção ao que alguém está dizendo. Existe um lado muito mais ativo do processo de escuta que poderia ser chamado de “edição”, porque, de certa forma, é muito semelhante ao trabalho feito para um autor por um editor literário ideal. 

De modo clássico, um bom editor não aceita simplesmente um manuscrito da forma como ele é apresentado pela primeira vez. Ele se põe a interrogar, cortar, expandir e focar o texto – não para mudar os fundamentos do que o autor está dizendo, mas para trazer à tona uma série de intenções subjacentes que tenham sido ameaçadas por digressões, hesitações, perda de confiança e lapsos de atenção. O editor não transforma o autor em outra pessoa: ele o ajuda a se tornar quem realmente é. 

O mesmo processo funciona com um bom ouvinte. Ele também sabe que parte do que o interlocutor está dizendo não reflete com precisão o que ele realmente quer dizer. Talvez ele queira tocar em um ponto sensível e triste, mas tenha medo de ser pesado ou dramático demais. Talvez o interlocutor queira deixar claro por que algo era bonito ou empolgante, mas se prenda em detalhes, repetições ou tramas secundárias. Pode haver uma verdade emocional que ele esteja tentando expressar, mas a qualidade de sua percepção é prejudicada pela sensação de que seria mais normal e mais seguro se ater aos detalhes factuais. 

Todas essas tendências, um bom ouvinte de espírito editorial sabe como corrigir com cuidado. Da maneira mais gentil possível, ele pedirá que o interlocutor abra seus sentimentos com mais intensidade e elabore as emoções com a sensação de que elas serão extremamente interessantes, em vez de chatas ou alarmantes para o ouvinte. Ele ajuda a encerrar tramas secundárias dispersas e conduz quem está falando de volta à história central, que havia se perdido em detalhes. Quando o interlocutor trava de medo, o bom editor-ouvinte fica à disposição com tranquilidade e incentivo. Ele sabe como sinalizar uma mente aberta e sugerir um lugar de boas-vindas para todos os tipos de confissões que parecem incomuns, mas são importantes.

O bom editor-ouvinte, no final, será responsável por muitas mudanças em uma conversa. Se essa conversa fosse transcrita e editada manualmente, haveria marcas de lápis vermelho em todo o texto. Porém, o resultado de tais intervenções nunca é um sentimento de violação, mas uma impressão de – através do trabalho hábil de outra pessoa – ter se aproximado das reais intenções de alguém. Um editor-ouvinte ideal nos ajuda a sermos mais nós mesmos do que sabemos ser sozinhos.

 

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Texto do The Book of Life

 

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