É paranóia minha?

A grande desvantagem da palavra “paranoia” é que ela pode soar como algo que apenas pessoas muito evidentemente perturbadas sentiriam um dia. Associamos o termo a tipos que têm certeza que o FBI os segue e que alienígenas estão planejando vir à Terra. Assim, ignoramos maneiras nas quais, de um jeito muito mais sutil, mas igualmente destrutivo, viramos presas de interpretações paranoicas e injustas da realidade que, ao longo do tempo, drenam sua alegria e seu potencial.

Nossa paranoia cotidiana pode ter conseguido se tornar uma característica constante e imperceptível da forma como vemos o mundo. Quando um chefe pergunta se podemos ir ao escritório dele para uma conversa, é claro que seremos demitidos. Quando um parceiro fica distante por um tempo, não há dúvida de que está tendo um caso. Quando queremos dar uma cantada em alguém de quem gostamos, podemos dizer que essa pessoa nos julga com revolta. Equipados com essas certezas, tomamos precauções compreensíveis: não sorrimos muito, nunca tomamos a iniciativa, interpretamos cada silêncio e situação ambígua como o fim ou um insulto. Às vezes, pode parecer preferível morrer.

O primeiro passo para superar nossa paranoia é notar que, apesar de nosso desinteresse em óvnis, podemos, na verdade, ser sofredores. Precisamos perceber com que frequência, e com que energia imaginativa perversa, ficamos interpretando a incerteza em uma direção negativa – e a forma incansável em que vemos tudo e todos em dimensões nefastas ou danosas. Precisamos identificar o masoquismo com que narramos a história de nossas vidas e que faz com que nada possa ser puro ou confiável. Precisamos dar um passo para trás e identificar a insistência com que cortamos cada fio de esperança, cada promessa de confiança – e a rapidez e naturalidade com que, aparentemente, todos devem nos odiar e o desastre vai acontecer.

Como sempre, a paranoia tem uma história. É uma hipótese sobre o futuro baseada em algumas ideias inconscientes formadas em um passado que a pessoa esqueceu ou decidiu ignorar. Comoventemente, o paranoico não está totalmente errado: algumas pessoas são ruins, algumas situações acabam mal, algumas coisas muito ruins acontecem... mas o erro subsequente se divide em dois. Primeiro, o paranoico localiza os problemas invariavelmente no futuro, vasculha o que está à frente em vez de olhar para trás e encontrar um evento particularmente traumático que terá sido responsável pela gênese de sua mente assustada e enraivecida. Segundo, há um erro de generalização. O paranoico imagina que todas as pessoas serão horríveis e que cada situação esperançosa azedará não porque isso seja verdade, mas porque um dia realmente foi, e suas dificuldades não foram encaixadas em um contexto adequado por uma mente adulta robustamente saudável.

No passado de cada paranoico haverá, quase com certeza, uma experiência de decepção espantosa. Alguém que deveria ter sido gentil não foi nada disso; um lugar que deveria ter sido seguro se transformou em um lugar de horror; alguém esperado não apareceu. Isso foi tão traumático que o paranoico pegou sua experiência e a imaginou como aplicável em todos os cenários da experiência humana. Assim, agora necessariamente cada história de amor terminará mal, cada pessoa aparentemente respeitável será cruel e cada coisa boa virará pó. A paranoia é uma experiência negativa generalizada – e esquecida como tal.

Isso nos dá pistas sobre como deixar a mentalidade paranoica para trás. Devemos trabalhar para expandir os dados em que nossas impressões de realidade se basearam. Precisamos aprender que o mundo não é todo mau, que só tivemos uma introdução muito ruim e seletiva a ele. Há algumas pessoas ruins, mas a ampla maioria é boa e disposta a ajudar. Há alguns grandes desastres, mas a maioria dos dias terminará calmamente. Precisamos de uma nova voz em nossa mente que possa, gentilmente, cutucar nossas presunções sinistras: “Tem certeza que nunca mais quiseram te ver?” “Realmente quiseram te insultar?” “Precisa ser o fim deste projeto?”

Então, precisamos lembrar que não somos mais a pessoa que éramos quando os eventos que geraram nossa paranoia aconteceram. Naquela época, éramos pequenos, não tínhamos opções, não podíamos fugir, reclamar ou encontrar um ambiente mais benevolente. Crianças não têm poder, mas os adultos que nos tornamos, sim. Temos a opção, a escolha certa, de nos afastarmos da minoria de cenários que podem nos machucar e indivíduos que querem nos derrubar. Não precisamos nos agarrar ao medo e à ansiedade, porque temos a confiança e a segurança para saber que podemos cuidar de nós mesmos.

Naturalmente, dar a ela um rótulo tão horrível como “problema psicológico” não ajuda ninguém a superá-la - nenhuma pessoa desejaria livremente se imaginar como sofredora. Assim, devemos aprender a ver a paranoia em termos leves, universais e respeitáveis: como uma suspeita muito comum, mas muito desnecessária, de que coisas decepcionantes e persecutórias estão prestes a acontecer, não porque realmente estão, mas porque um dia aconteceram. Somos paranoicos não porque alguém realmente esteja nos seguindo, mas porque – lá atrás – alguém nos perseguiu e éramos jovens e frágeis demais para aprender a dar a perspectiva adequada a eventos negativos.

O oposto da paranoia é, de certa forma, o amor, uma confiança de que não merecemos sofrer, de que os outros reagirão adequadamente à nossa vulnerabilidade, de que não somos altos naturais de gozação. Não somos um pouco paranoicos porque somos teóricos malucos da conspiração, mas por um motivo muito mais tocante e compreensível: porque um dia estivemos extremamente assustados, fracos e sozinhos, e agora nunca mais precisamos ficar assim.

Texto do The Book of Life

 

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