Conversar é uma arte

Ter uma conversa decente é algo que a maioria de nós imagina que consiga fazer sem problema algum – e certamente sem pensar muito. Essas coisas acontecem naturalmente. Ou não?

No entanto, na verdade, conversas realmente boas acontecem muito raramente – em grande parte, porque nossas sociedades acreditam no mito romântico de que saber como falar com as outras pessoas é algo que nascemos sabendo fazer, e não uma arte que depende de um pouco de planejamento e algumas habilidades. Aceitamos, corretamente, que o improviso total na preparação de uma refeição provavelmente não terá bons resultados, mas não mostramos precaução ou modéstia quando se trata de como podemos falar sobre a comida depois de pronta. Encontrar-se em uma boa conversa pode parecer tão desordenado e aleatório quanto dar de cara com uma linda praça em uma cidade estranha à noite – e perceber que não saberá bem como voltar lá durante o dia.

A busca por conversas melhores deve começar com a pergunta sobre para que uma conversa serve idealmente. Aqui, duas funções básicas se sugerem: confirmação e esclarecimento.

A história oficial de como a vida é deixa de fora uma parte considerável sobre quem realmente somos. Uma parte excessiva do que sentimos não pode ser normalmente revelada por medo de sermos humilhados e causar alarme ou desconforto indevido. Nossa inveja dos colegas, nossas decepções no amor, nossos verdadeiros sentimentos com relação à família, nossos hábitos vergonhosos e medos bobos, nossos mais loucos devaneios políticos... pouco dessa “normalidade silenciosa” tem a chance de ser discutido; até nos encontrarmos em uma boa conversa, no sentido de que ela – de forma habilidosa, sem lascívia ou julgamento – consegue confirmar a aceitabilidade fundamental de emoções e ideias até então cuidadosamente protegidas.

A timidez leva muita culpa pelas más conversas. Ficamos com medo de abrir a alma por que exageramos falsamente a diferença entre nós e os outros. Exibimos apenas nossos pontos fortes, alardeamos apenas nossos sucessos, estabelecemos apenas nossas propostas convencionais – e deixamos os outros entediados como resultado porque é na revelação de nossas fraquezas, na exibição de nossas fragilidades, na confissão de nossas fantasias mais malucas é que ficamos mais interessantes e agradáveis. É quase impossível ficar entediado quando uma pessoa te diz sinceramente no que fracassou ou quem a humilhou, o que anseia e qual foi seu momento mais louco.

Daí, vêm os prazeres do esclarecimento, conversas em que outra pessoa afia nossas ideias corrigindo nossas tendências a vazio mental e distração. Pensar sozinho é difícil, nossas mentes se afastam da pressão de dar foco a ideias, preferindo o charme de devanear na internet, em vez disso. Quão útil, portanto, é poder embarcar no trabalho de pensar com alguém que possam nos mostrar as questões que precisamos refinar, dar coragem para que sigamos em frente com nossos pensamentos iniciais hesitantes e preencher nossas análises com seus insights.

Em países demais, um medo errôneo da “pretensão” impede que as pessoas levantem os grandes tópicos recompensadores – como se apenas gente muito especial tivesse o direito de considerar de frente o que realmente significa ser humano. No entanto, permissão é necessária para sondar as hipóteses centrais da

vida humana? Em que outra ocasião devemos perguntar: Qual é o objetivo do trabalho? O que torna um relacionamento bom? Como devemos criar os filhos? Para que devemos viajar? O que nossos países devem ser?

Devemos ser mais corajosos e exigentes quanto às conversas em que entramos. Em vez de ver exemplos bem-sucedidos como um dom, devemos lutar para nos tornarmos seus engenheiros e cultivadores regulares.

Recent entries