Como ser um bom ouvinte

Ser um bom ouvinte é uma das habilidades mais importantes e encantadoras que alguém pode ter na vida. Ainda assim, poucos de nós sabem como fazer isso, não porque somos maldosos, mas porque ninguém nos ensinou como e, além disso, poucas pessoas nos escutaram suficientemente bem. Então, entramos na vida social sedentos para falar em vez de ouvir, para conhecer outras pessoas, mas relutamos em escutá-las. A amizade se transforma em um egoísmo socializado.

Como a maioria das coisas, a resposta está na educação. Nossa civilização está repleta de livros sobre como falar – “Orador” de Cícero e “Retórica” de Aristóteles foram duas das maiores obras do mundo antigo –, mas, infelizmente, ninguém escreveu um livro com o título de “O Ouvinte”. O bom ouvinte faz muitas coisas que tornam sua companhia agradável.

Sem necessariamente perceber, muitas vezes somos atraídos à conversa por algo que parece urgente e um tanto indefinido. Somos incomodados no trabalho, brincamos com mudanças mais ambiciosas de carreira, não sabemos bem se algo é certo para nós; uma relação passa por problemas, esquentamos a cabeça com alguma coisa ou nos sentimos um pouco desanimados com a vida no geral (sem conseguir indicar exatamente o que está errado); ou talvez estejamos muito empolgados e animados com algo – mas os motivos para isso são difíceis de listar.

No fundo, todas essas são questões em busca de elucidação. O bom ouvinte sabe que, idealmente, passaríamos – via conversa com outra pessoa – de um estado mental confuso e agitado para um mais focado e (tomara) mais sereno. Em conjunto com eles, desvendaríamos o que realmente está em jogo, mas, na realidade, isso tende a não acontecer porque não há conscientização suficiente sobre o desejo e a necessidade de esclarecimento dentro da conversa. Não há bons ouvintes suficientes, então as pessoas tendem a afirmar em vez de analisar. Elas reforçam de muitas formas diferentes o fato de que estão preocupadas, empolgadas, tristes ou esperançosas e seu interlocutor escuta, mas não as ajuda a descobrir mais.

Bons ouvintes combatem isso com diversas jogadas conversacionais. Eles pairam enquanto o outro fala; fazem comentários encorajadores de apoio, gestos positivos suaves: um suspiro de solidariedade, um aceno de estímulo, um “hmm” estratégico de interesse. O tempo todo incentivam o outro a se aprofundar nas questões. Amam dizer: “fale mais sobre…”, “fiquei fascinado quando você disse...”, “por que você acha que isso aconteceu?” ou “como você se sente com isso?”

O bom ouvinte dá como certo que encontrará imprecisão na conversa dos outros, mas não condena, apressa ou fica impaciente, porque vê a imprecisão como um problema universal e altamente significativo da mente que precisa da ajuda de um verdadeiro amigo. O bom ouvinte nunca esquece como é difícil – e importante – conhecer nossa própria mente.

Quando estamos na companhia de pessoas que realmente escutam, sentimos um prazer muito grande, mas demasiadas vezes não percebemos o que exatamente essa pessoa faz de tão bom. Ao prestar atenção estrategicamente em nossos sentimentos de satisfação, podemos aprender a ampliá-los e oferecê-los aos outros, que notarão, solucionarão – e retribuirão o favor. O ato de ouvir merece ser descoberto como uma das chaves para uma boa sociedade.

Texto do The Book of Life

Tradução de Ligia Fonseca

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