Como se Tornar um Empreendedor

Abrir o próprio negócio é uma das coisas mais criativas, significativas e sensatas, no sentido prático, que alguém pode fazer na vida, mas poucos de nós chegam perto de dar uma chance a isso. Alguns dos obstáculos são técnicos e econômicos, enquanto muitos outros ficam basicamente no âmbito psicológico. São os tipos de problema para os quais as empresas devem recorrer à psicoterapia e à filosofia.

O primeiro deles é a suspeita destruidora de confiança, à espreita, de que se uma ideia para um negócio for genuinamente boa, alguém já deve tê-la tido. Essa tese melancólica nos diz que o capitalismo está tremendamente superdesenvolvido: temos todos os negócios de que precisamos e, portanto, não deve haver nada mais para um iniciante fazer de forma lucrativa.

No entanto, para ver como ela está incorreta, só precisamos perguntar a nós mesmos se estamos continuamente satisfeitos em toda área de nossa vida, porque os negócios podem ser definidos como uma tentativa organizada de um grupo de pessoas resolver os problemas das outras. Seja como for, empresas só serão maduras quando cada ser humano atingir um estado de saciedade total. Sempre que vemos um problema – em nossa vida ou na dos outros –, também vemos, pelo menos teoricamente, um negócio latente esperando para ser desenvolvido. O único verdadeiro objetivo final do esforço capitalista (e tempo para o desemprego legítimo) é a resolução de todos os nossos problemas.

Uma forma de pensar no que as empresas do mundo ainda precisam é enfrentar um dia comum e se perguntar onde é possível notar, em qualquer segmento, problemas falhas, atritos ou ineficiências. Há, claro, algumas áreas em que o capitalismo é tão bem desenvolvido que realmente não parece existir problema algum. Provavelmente não há nada para reclamar sobre o número de cereais matinais para comprar ou de opções que se tem ao escolher um lápis. Alguns mercados já são, como os economistas dizem, verdadeiramente maduros.

No entanto, em muitos outros segmentos, problemas não tratados – grandes e pequenos – nos atacam por todos os lados. Enfrentamos diversas situações em que, idealmente, gostaríamos de uma solução e não parece haver nenhuma, pelo menos não no formato ou a um preço adequado: tivemos uma discussão intensa com nosso companheiro e não há ninguém para ajudar; a vista da janela é desanimadoramente feia; não temos muitos amigos interessantes, não há restaurantes italianos atentos a calorias, sentimos que não estamos aproveitamos ao máximo nossas oportunidades; a mídia que consumimos nos atrai, mas não nos alimenta. Em um número assustador de segmentos, temos problemas grandes e pequenos – e ninguém aparentemente interessado em consertá-los. Essa é, ao mesmo tempo, uma inconveniência e uma prova bem-vinda do quanto nossas economias ainda são extraordinariamente subdesenvolvidas.

O que frequentemente não se vê aqui é a distinção entre inovação técnica e psicológica. Muitíssimas vezes, imaginamos que a empresa só pode expandir quando pessoas fazem uma descoberta tecnológica, quando um novo aparelho ou motor ou remédio é disponibilizado ao mercado, mas isso subestima as tremendas possibilidades que surgem do que se pode chamar de “inovação psicológica”: em outras palavras, quando empresas são fundadas e não resolvem novos problemas porque têm um novo maquinário, mas sim porque têm visões novas e evoluídas, de natureza psicológica, sobre o problema de outras pessoas.

A cultura de negócio naturalmente estimula o novo empreendedor a fazer pesquisas de mercado, mas isso normalmente fracassa porque a maioria das boas ideias do mundo não poderia ter sido descrita por um público antes de sua criação e, portanto, registrada nos questionários do fabricante.

A maior fonte de visão para o tipo de problema em torno do qual um bom negócio pode ser construído é o indivíduo. É a partir da observação atenta dos problemas que alguém encontrou pessoalmente, e prestou atenção, que uma empresa robusta tem chance de surgir. A melhor forma de entender as necessidades de milhões de clientes em potencial é entender as próprias necessidades antes de mais nada. A forma mais inteligente de pesquisa de mercado é a introspecção.

Ela diz que um grande motivo para empresas falirem é que elas não conseguem identificar – com precisão suficiente – problemas reais que pessoas reais têm, pelo menos em uma escala necessária para embasar uma empreitada. O fracasso econômico é, em sua essência, um fracasso em conhecer outras pessoas, um fracasso da psicologia, muito mais do que um problema de execução.

Outro obstáculo é mais pessoal. Ser um empreendedor de sucesso exige que tenhamos uma noção focada de quais problemas estamos realmente mais interessados em resolver para os outros e para nós mesmos. Não é suficiente operar com uma noção vaga de que, por exemplo, queremos ser criativos ou úteis para os outros. Muitos problemas podem nos intrigar levemente, mas não serem preocupantes o bastante para nos dar a concentração e a energia necessárias para um longo enfrentamento de décadas sobre um tópico.

Poucas dessas dimensões psicológicas de um negócio são abordadas na educação empresarial como atualmente a entendemos. Escolas de negócios nos dão habilidades financeiras e de gestão – raramente nos ajudam com os dilemas psicológicos difíceis:

 

  1. Que problemas importantes as outras pessoas ainda têm?
  2. Onde notei problemas em minha vida que são relevantes para os outros?
  3. Que problemas realmente quero resolver para os outros?

 

Os negócios são, pelo menos potencialmente, um campo imensamente digno e criativo no qual resolvemos problemas uns dos outros – e lucramos um pouco ao longo do caminho. O fato de seres humanos ainda estarem profundamente insatisfeitos é uma tragédia social e uma provocação contínua e inspiração para qualquer um que anseie desenvolver suas capacidades empreendedoras.

Texto de Alain de Botton

 

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