Como passamos a desejar um trabalho que pudéssemos amar

Uma das características mais inusitadas e, ao mesmo tempo, mais comuns de nossa época é a suposição de que deveríamos ser capazes de encontrar um trabalho que não apenas toleramos ou suportamos pelo dinheiro, mas que apreciamos pelo alto grau de propósito, camaradagem e criatividade que nos proporciona. Não vemos nada de estranho na ideia de que devemos tentar trabalhar com algo que amamos.

No entanto, sabemos que não se trata de algo simples. Para ter alguma chance de tornar esse desejo realidade, precisamos dedicar muito tempo, imaginação e reflexão à complexidade que há em torno dele.

Durante a maior parte da história, a questão de amar ou não o próprio trabalho pareceria risível ou no mínimo esquisita. Arávamos a terra e criávamos animais, trabalhávamos em minas e esvaziávamos penicos. E sofríamos. O servo ou pequeno proprietário de terra só tinha a expectativa de alguns poucos instantes de satisfação, sempre fora do horário de serviço: a festa da colheita do ano seguinte ou o casamento do filho mais velho, que, no momento, tinha 6 anos.

A suposição era de que, se tivessem dinheiro suficiente, as pessoas simplesmente deixariam de trabalhar. Entre os antigos romanos (cujo estilo de vida dominou a Europa durante séculos), as classes instruídas consideravam humilhante qualquer trabalho remunerado. É reveladora a origem da palavra “negócio”: negotium, literalmente, “atividade não agradável”. O lazer – fazer pouca coisa, talvez caçar ou oferecer jantares – era considerado a única base de uma vida feliz.

Então, no final da Idade Média, uma mudança extraordinária teve início: algumas pessoas começaram a trabalhar por dinheiro e por realização. Um dos primeiros a perseguir com sucesso essa incomum ambição foi o artista veneziano Ticiano (c. 1485-1576). Por um lado, ele se deliciava com os prazeres da criatividade em seu trabalho: representar o modo como a luz incidia sobre as dobras de um tecido ou revelar o segredo do sorriso de um amigo. Mas, por outro, ele acrescentou um aspecto muito esquisito – estava interessado em ser bem pago por isso. E era esperto na hora de negociar contratos para fornecer quadros. Ele aumentou sua produção (e sua margem de lucro) criando um sistema fabril de assistentes especializados nas diversas fases do processo de produção, como pintar drapejados, por exemplo (ele contra- tou cinco rapazes de Verona para pintar as cortinas de suas obras). Ticiano foi um dos pioneiros de uma ideia inovadora e profunda: o trabalho podia e devia ser, ao mesmo tempo, algo que amamos fazer e uma fonte de renda razoável. Essa foi uma noção revolucionária que aos poucos se espalhou pelo mundo. Hoje, ela reina suprema, pautando nossas ambições e ajudando a definir as esperanças e frustrações tanto do contador do banco da esqui- na quanto de um programador de jogos do outro lado do mundo.

Ticiano introduziu um fator complicador na psique moderna. Anteriormente, buscava-se satisfação fazendo ou criando algo de forma amadora, sem esperar dinheiro em troca do próprio esforço; ou se trabalhava por dinheiro e não se dava muita importância a gostar do serviço realizado. Então, a partir da nova ideologia do trabalho, nenhuma das duas coisas, isolada, era mais aceitável. Agora essas duas ambições – dinheiro e realização pessoal – deveriam se fundir. Em essência, um bom trabalho passou a significar uma ocupação que entrasse em contato com os aspectos mais profundos do eu e pudesse gerar um produto ou serviço que pagas- se pelas necessidades materiais do indivíduo. Essa dupla exigência trouxe uma dificuldade específica à vida moderna: temos que perseguir dois ideais muito complicados, que estão longe de se alinhar naturalmente. Precisamos satisfazer a alma e bancar nossa existência material.

É interessante que não foi só em torno do ideal do trabalho que desenvolvemos ambições elevadas que combinam o lado espiritual com o material. Algo muito parecido aconteceu com os relacionamentos. Durante a maior parte da história humana, seria inimaginável supor que se devia amar (e não apenas tolerar) o cônjuge. O objetivo do casamento era inerentemente prático: unir terras adjacentes, encontrar alguém que soubesse ordenhar vacas ou que pudesse gerar uma ninhada de filhos saudáveis.

O amor romântico era algo diferente; podia ser experimentado num verão aos 15 anos ou com outra pessoa que não fosse a esposa depois do nascimento do sétimo filho. Então, por volta de 1750, uma crença peculiar começou a ocupar espaço também nessa área. Começamos a nos interessar por outra ideia bastante ambiciosa: a do casamento por amor. Um novo tipo

de esperança começou a obcecar as pessoas; talvez, afinal, fosse possível estar casado, admirar o cônjuge e simpatizar com ele ou ela. Em vez de dois projetos distintos – casamento e amor –, surgiu um conceito mais complexo: o casamento por amor.

O mundo moderno é construído em torno de visões esperançosas de como elementos que até então pareciam dissociados (dinheiro e realização criativa; amor e casamento) poderiam se unir. São ideias generosas, de espírito democrático, cheias de otimismo sobre o que podemos realizar e intolerantes na medida certa em relação às antigas formas de sofrimento. Mas, quando tentamos agir a partir delas, também se revelaram catastróficas. Elas nos decepcionam constantemente. Provocam impaciência e sentimentos de paranoia e perseguição. Geram novas e potentes formas de frustração. Julgamos nossa vida por novos critérios ambiciosos que nos fazem sentir eternamente fracassados.

Existe uma complicação extra. Embora nos tenhamos imposto metas tão impressionantes, tendemos a dizer a nós mesmos que, em essência, não é difícil atingi-las. Precisamos apenas seguir nossa intuição, supomos. Encontraremos o relacionamento ideal (que unirá o amor à estabilidade prática do dia a dia) e uma boa carreira (que unirá a meta prática de obter renda à sensação de realização pessoal) confiando em nossos sentimentos. Acre- ditamos que, do nada, um dia experimentaremos um ímpeto emocional único na presença da pessoa certa; ou que sentiremos uma atração genuína por uma carreira que será perfeita para nós. Depositamos uma parcela decisiva de confiança no fenômeno da intuição visceral.

Um sintoma de nossa devoção à intuição é que não reconhecemos de imediato a necessidade de treina- mento e instrução para entrar em um relacionamento ou na busca por uma carreira. Partimos do pressuposto, por exemplo, de que as crianças precisarão de muitas horas de aula para se tornarem competentes em matemática ou aprenderem uma língua estrangeira. Está claro para nós que a intuição e a sorte nem sempre levarão a um bom resultado em química. No entanto, acharíamos esquisito se o currículo escolar incluísse aulas diárias, durante anos a fio, sobre como fazer um relacionamento dar certo ou como encontrar um emprego condizente com nossos talentos e interesses. Somos capazes de reconhecer que essas decisões são importantes e fundamentais, mas, por um estranho capricho da história intelectual, passamos a supor que não é possível ensiná-las nem aprendê-las.

Elas são essenciais, mas aparentemente acreditamos que a resposta certa surgirá em nosso cérebro na hora certa, como num passe de mágica.

O objetivo da The School of Life é corrigir essas suposições cruéis e nos equipar com ideias que per- mitam realizar melhor as ambições (mas, na verdade, dificílimas) que acalentamos a respeito da vida emocional e profissional.

 

Saiba mais sobre nossas aulas e workshops sobre trabalho aqui: https://www.theschooloflife.com/saopaulo/calendario/

Recent entries