As festas de fim de ano quando estamos nos sentindo mal

Para aqueles de nós que estão se sentindo frágeis mentalmente ou às vezes simplesmente não estão se sentindo bem, a perspectiva das festas de fim de ano costuma representar desafios particulares.

Para começar, existe uma pressão maior do que o normal para estarmos felizes, o que pode ser extremamente assustador e provocar muita culpa. Não apenas podemos acabar enfrentando uma tristeza avassaladora, ansiedade ou sentimentos de perseguição, como também somos lembrados de como estamos em desacordo com o resto da sociedade nesse momento do calendário. Nosso humor parece totalmente contrário ao espírito exigido de nós. Mais uma vez, nos preocupamos em decepcionar os outros. Temos ainda mais um motivo para odiarmos a nós mesmos (um sentimento que pode estar justamente no cerne do nosso mal-estar mental).

Podemos estar cercados por muito mais gente do que o habitual, e nossos espaços e rotinas são interrompidos. Além disso, quem cuida de nós – terapeutas, analistas, psiquiatras e profissionais de saúde mental – estão tirando suas folgas. A última sessão antes das férias pode ser especialmente traumática e triste. Duas semanas a partir de agora pode parecer muito tempo.
Para ajudar a lidar com todos esses problemas, convém manter alguns pensamentos em mente:

Em conversas com nós mesmos e com os mais próximos, devemos considerar que estamos diante de algo que pode ser legitimamente muito difícil. Acima de tudo, não é preciso ter coragem sem ajuda. Estamos prestes a ser golpeados pela turbulência. Precisamos nos preparar.

Na medida do possível, devemos dizer às pessoas próximas de nós que sugestões sobre sermos otimistas e alegres são um teste e tanto e que o que nos dá uma chance melhor de ficarmos bem é não precisarmos atuar, não termos de ser alegres e sermos o mais fiéis possível ao nosso verdadeiro ânimo. Mesmo assim, podemos nos sentir como impostores – e não precisamos aumentar ainda mais a tensão. Não somos maus ou misantropos, apenas não estamos muito bem. E isso significa que talvez seja aceitável passar parte das festas deitados na cama, pensando em coisas sombrias. Precisamos criar um senso mais amplo e gentil do que é normal.

Devemos nos lembrar e lembrar aos outros que é inteiramente habitual que a mente humana esteja em determinado estado. Essas mentes não são diferentes de qualquer outro órgão, elas apresentam falhas e precisam de cuidados. Por que não podemos dar à mente com problemas o mínimo de atenção que damos a alguém com o polegar machucado ou o ombro ferido? Temos o direito de não nos sentirmos bem mentalmente.

Nós não estamos sozinhos. Às vezes, pode parecer como se o mundo inteiro tivesse dado lugar à alegria, mas a realidade de sermos humanos é que um grande número de nós não está sorrindo. Estamos profundamente ansiosos, passando regularmente por ataques ferozes de culpa e desprezo por nós mesmos, somos visitados por pensamentos suicidas, imaginamos que seria melhor estarmos mortos. Nos sentimos muito inadequados. Refletimos que teria sido muito melhor se nunca tivéssemos nascido.

Mesmo pessoas aparentemente fortes que parecem nunca ter tido problemas em suas vidas acabam tendo histórias e áreas de dor surpreendentes quando perguntamos. Não existe praticamente ninguém que não tenha passado por algo terrível. E se você acessar isso, poderá se conectar com essas pessoas e, às vezes, criar novos vínculos surpreendentes. Ouse revelar um pouco sobre o que está passando, quando se sentir pronto.

As festas de fim de ano costumam envolver tempo junto de pessoas que formaram nossa psique e estão no centro de alguns de nossos problemas. Devemos correr o risco de mudar a natureza das conversas que temos com elas. Se essas pessoas não se sentirem responsabilizadas, podem ser capazes de aceitar muitas coisas. Elas podem ter tornado nossas vidas infinitamente mais difíceis do que precisariam ser, mas ainda podem estar na posição de nos escutar.

Devemos ser gentis e indulgentes com nós mesmos quando o humor exige isso. Deveríamos nos perguntar se podemos tomar um longo banho, dar uma caminhada no campo, desaparecer por um tempo sozinhos. Se você for razoavelmente gentil, quem ama você lhe deixará fazer quase tudo o que precisa. As pessoas não se importam de lidar com pacientes. Tente ser um bom paciente: o que significa basicamente ser alguém que explica e demonstra gratidão.

As festas de fim de ano passam. São apenas alguns dias, na verdade, e as coisas voltarão ao normal. Às vezes surgem coisas, nós lidamos melhor do que imaginávamos ser capazes, temos alguns novos insights e, ao nosso modo, por alguns momentos, quase ficamos felizes ou, pelo menos, vemos um novo pensamento que podemos usar em nosso progresso muito hesitante para algo melhor do que o estado atual.

 

Texto do The Book of Life

Tradução de Cassia Zanon

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