As Dores da Liderança

As Dores da Liderança

 

Tendemos a ver muito claramente por que poderia ser bom estar em uma posição de liderança. Há mais status, você pode decidir como as coisas deveriam ser e – muito frequentemente – ganha mais, mas também há alguns aspectos sombrios.

Veja cinco deles...

 

Um: Você se torna alvo de sátira

A ascensão da sátira

É muito agradável, e também uma tendência natural, fazer uma crítica sagaz. Você pode ter algum talento para isso, pois a sátira sempre existiu. Antes de se tornar um líder – ou gerente, ou chefe, ou empregador –, está do lado da sátira. Adora ver o que não está muito bem, é bom de identificar o culpado e consegue enxergar todos os erros de quem toma as decisões.

 

Os poderosos são alvos aceitos de sátira.

Coletivamente, temos um crédito imenso por achar inaceitável que os fortes zombem dos fracos. Agora, reservamos nosso sarcasmo, piadas e atribuição de culpas a quem achamos que aguentam – e realmente merecem – isso porque essas pessoas ocupam posições privilegiadas; quem está a cargo, de alguma forma, não apenas topa tudo, como também quase sentimos que é nosso dever expressar nossas críticas da forma mais alta e eficaz que podemos.

O mundo moderno é muito atento aos fracassos do poder. A simpatia pelos poderosos é vista como ingênua – o que não é um problema, até você se ver na liderança.

 

Você será mal compreendido.

Tudo parece muito diferente do ponto de vista da pessoa na posição de liderança. O ex-primeiro ministro britânico John Major, por exemplo, não era o personagem que os cartuns retratavam. Claramente, não é possível se tornar líder de um país moderno e grande sem ser, no mínimo, extremamente astuto e intensamente determinado. Major é um exemplo de uma dor muito geral de estar em uma posição de liderança: você é mal entendido e representado.

 

Suas falhas são exibidas publicamente

Elas são visíveis a todos e você não poderá fazer nada quanto a isso. Não pode dar meia volta e, se tentasse, seria criticado por fazer isso.

 

As reclamações não são realistas

Uma reclamação é composta por dois elementos diferentes:

Insatisfação + crença de que o problema pode ser resolvido (facilmente) = reclamação

Não reclamamos quando as coisas parecem inevitáveis. Não dá para reclamar se faz frio na Noruega no inverno ou se a Escócia não ganha a Copa do Mundo.

Para o líder – ou gerente ou chefe –, as complicações e dificuldades por trás dos problemas são mais aparentes do que para os funcionários. Você se torna o para-raios para insatisfação e inveja. As pessoas serão maldosas não porque você tenha feito algo em particular para merecer sua ira, mas porque é o alvo mais próximo disponível. Nem sempre conseguimos descobrir claramente por que nos sentimos incomodados, frustrados, decepcionados ou de pavio curto, mas precisamos ter alguém para culpar, e o alvo ideal é uma pessoa próxima e que, aparentemente aguenta isso; em outras palavras, o líder.

 

Dois: Você tem de virar poeta

Você pode ter estudado engenharia elétrica e, recentemente, sua carreira pode ter focado em gestão de cadeia de suprimentos, mas, em algum momento, a liderança exigirá que se torne um poeta.

 

Ânimo

O motivo tem a ver com ânimo. Uma das principais questões na história das guerras tem sido o poder da moral. Em momentos cruciais da batalha, uma única pessoa se virando para fugir podia levar ao pânico em massa, enquanto se uma pessoa mostra confiança, tropas inteiras podem seguir.

O ânimo na empresa é criado por líderes – embora não precise estar na escala que leva as pessoas à batalha. Não envolverá gritar literamente “em frente!” e acenar uma bandeira. Em vez disso, o líder moderno precisa ser um poeta.

 

Para que serve a poesia

A poesia é a ambição de usar palavras para deixar ideias entrarem em nossa imaginação, de forma a influenciar nossas vidas. Ela se baseia na percepção de que como você apresenta algo é imensamente importante para sua eficácia.

O poeta romano Horácio identificou duas características essenciais da boa poesia. A poesia, disse, deve ser doce e útil – ou seja, deve ter utilidade e doçura.

 

Utilidade

Útil significa que aborda os problemas que uma pessoa realmente tem e que a atrapalham. A utilidade depende de uma compreensão do que está perturbando alguém. Como uma geração que vive após o chamado romântico de que a arte deveria ser apenas “pela arte”, é surpreendente e revigorante encontrar um poeta que quer que a poesia faça coisas no mundo.

 

Doce – doçura ou atração

A doçura significa que é algo de que você gosta: é atraente, interessante. Não é necessário tentar se forçar a seguir em frente (porque sabe que, apesar da dor, é bom para você).

Sua utilidade está em dizer que você não pode deixar de se decepcionar com seus pais e essa não foi a intenção deles, não conseguiram evitar. Os defeitos de seus pais não foram um fracasso específico deles, mas sim uma característica triste e embrenhada da condição humana. Não é necessariamente útil para todos – mas muita gente PRECISA ouvir esta mensagem várias vezes: eles te decepcionaram, mas foi sem querer; seus pais os decepcionaram; se você tiver filhos, vai decepcioná-los e também não será intencionalmente.

 

O líder precisa ser um poeta porque precisa tornar o projeto da companhia motivacional; dos milhões de coisas que poderia dizer (os acionistas estão contentes; nossos fios de cobre são 3% mais baratos que os da concorrência), precisa encontrar as coisas que tocam o coração das pessoas que lidera.

 

Três: Você tem de abandonar velhos amigos

No século 19, quando as pessoas imigravam, provavelmente sabiam que nunca mais veriam os amigos. Estavam dando um passo com grandes consequências. Eram incrivelmente conscientes da escala do que estavam fazendo. Tinham vendido seu casebre, juntado todos os seus pertences, podiam sentir o movimento lento do navio. Uma viagem de 14 semanas estava diante delas.

Há muitos passos na vida com uma característica semelhante – eles nos levam a um novo mundo do qual não podemos voltar, mas normalmente são menos abertamente dramáticos. Assim, o trauma não é reconhecido tão facilmente – embora o sofrimento seja o mesmo.

É a dor do processo de amadurecimento. Quando você vira adulto, não pode realmente voltar a ser criança – embora muitas vezes seja infantil. Nunca mais sentirá a tranquilidade total que vem da convicção garantida de que outras pessoas cuidarão de tudo; subir uma árvore não parecerá mais a aventura mais maravilhosa do mundo; uma cadeira nunca mais será um barco ou o espaço entre sua cama e o guarda-roupa, o oceano Pacífico.

Tornar-se um líder é sofrer uma mudança deste tipo. Algumas versões anteriores (e muito boas) suas terão de ser guardadas. O gênio sarcástico pode não voltar. As pessoas com quem você se divertiu muito no trabalho lhe acharão mudado – e ficarão mais distantes; não é mais tão bom estar ao seu lado. Você parecerá mais frio, não terá senso de humor. Terá de funcionar sem ser entendido por pessoas antigamente próximas.

 

Quatro: Você precisa ser como Jesus

Independentemente de crenças religiosas, é evidente que Jesus foi um dos maiores líderes de todos os tempos. Um dos principais segredos foi que uniu duas características que geralmente parecem opostas.

 

Ele era poderoso

A ideia central do cristianismo é a de que Jesus é filho de Deus e tem um imenso poder, mas, ao mesmo tempo...

 

Ele era um de nós

 

É inerentemente difícil ser essas duas coisas ao mesmo tempo: íntimo e também no controle. Tradicionalmente, esses são papéis diferentes. Não somos especialmente preparados para exercer ambos ao mesmo tempo.

As pessoas em posição de autoridade que entenderam a moral da história de Jesus sabem como combinar a liderança com a simplicidade.

Quando usa transporte público, a rainha da Inglaterra está, por um lado, fazendo algo muito normal, mas, o fato de que faz isso é – claro – espantoso: porque ela poderia facilmente usar um helicóptero, porque foi coroada na Abadia de Westminster como rainha da Grã Bretanha, Irlanda e Domínios Britânicos além-mar, defensora do reinado e da fé.

O que nos comove, mesmo se normalmente não demonstremos isso, é que ela é, ao mesmo tempo, soberana e passageira, extraordinária e normal.

A hierarquia é um aspecto profundamente doloroso da sociedade humana. É por isso que é profundamente tocante – e reconfortante – se vemos alguém que poderia voar de helicóptero pegar o trem. Cai bem para o mundo.

Vivemos em sociedades oficialmente igualitárias e meritocráticas, mas somos infinitamente expostos a grandes diferenças de riqueza, poder, status e fama. Somos fascinados pelas vidas de quem está no topo e, ao mesmo tempo, incomodados. Elas entendem? Sabem como é? Qualquer pista de que saibam é profundamente significativa.

 

Cinco: Você será odiado. Aprenda uma lição com o MBA de Casa

Há uma área na qual, atualmente, não esperamos aprender muita coisa que possa ser útil no lugar de trabalho: nossa casa.

O lar deve ser um lugar de relaxamento, doçura e diversão, uma folga da aspereza do escritório. Além disso, quando há filhos, não se espera que os pais modernos “liderem”, mas sim simplesmente tentem tornar a vida o mais agradável possível para as crianças.

A noção de paternalismo – de um tipo mais autoritário de liderança doméstica – foi envenenada e se tornou alvo de ceticismo constante.

A dificuldade da paternidade é que se pede aos pais para serem guardiões dos interesses de longo prazo de alguém que se convencerá, diversas vezes, de que você está profunda e cruelmente errado (sobre o computador, dormir na casa da amiga, usar o carro...), o que pode ser verdade, mas não impede a necessidade de ter um plano e um princípio.

Sempre é uma surpresa para novos pais o quanto podem amar seus filhos e, também, como é estranho precisar dizer “não” a eles – e, assim, ser alvos de ódio especial vindo de alguém por quem dariam a vida. O papel de pai é um campo de treinamento sobre a inevitabilidade de tomar decisões impopulares – e não esperar simpatia ou gratidão por muito tempo.

Talvez demorem 25 anos para entender por que você tomou certa decisão – quanto mais reconhecer, hesitantemente, que havia sentido nisso.

Líderes modernos e pais modernos não estão inclinados a traçar paralelos entre suas atividades; pensar que “meus filhos são meus funcionários” e “meus funcionários são meus filhos”, mas é puro melindre de nossa parte não vermos a vida doméstica como o treinamento para nosso trabalho (e especialmente para papéis de liderança) que ela pode ser. Não há MBAs a serem recebidos na mesa de jantar e aprimorados em meio aos gritos angustiados perto da hora de escovar os dentes e ir dormir.

 

Conclusão:

Há um hábito de ressaltar os benefícios e entender os pontos negativos de grandes evoluções na vida. Casamentos geralmente exageram as alegrias de ser um casal e a paternidade geralmente é algo discutido apenas em seus aspectos realizadores e empolgantes. Obviamente, não é que não existam pontos positivos, mas é que, sozinhos, eles dão uma narrativa inutilmente irrealista de onde estamos nos metendo. Aumentam demais as expectativas, então, por comparação, ser casado ou pai de família é uma decepção. O risco é de ficarmos muito desencantados e apavorados quando as coisas se mostram muito mais difíceis do que tínhamos previsto.

A posição de ser chefe, entrar para a equipe de liderança ou geralmente ter mais responsabilidade e poder parece invejável. No entanto, como temos visto, traz consigo dificuldades e problemas consideráveis.

Se presumirmos que algo tem de estar muito facilmente ao nosso alcance e não ser tão difícil de fazer, entramos em pânico e ficamos preocupados se, de repente, vemos que estamos com muita dificuldade. Achamos que deve haver algo particularmente errado com nossa natureza, tememos não sermos adequados para o papel, não termos o necessário, mas nossos sentimentos não são justos conosco. São, na verdade, causados mais por nossas expectativas iniciais do que por qualquer defeito especial que tenhamos.

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