As consolações de um banho quente

É fácil se perder em pensamentos ao imaginar uma vida feliz. Uma pessoa desenha mentalmente o emprego perfeito, o relacionamento ideal, um grupo amplo de amigos fascinantes, mas sempre animados.

É encantador pensar nessas coisas, mas é inútil se agarrar a essas esperanças: a vida talvez não faça jus a elas e essa pessoa ficará decepcionada para sempre. É por isso que existe uma sabedoria em focar nos prazeres confiáveis e na satisfação ao alcance de nossas mãos. Um banho quente se encaixa nesta categoria.

O banho nos permite estar descobertos e aconchegantes. A não ser que moremos em zonas pouco favoráveis do mundo, o ambiente físico normalmente é desanimadoramente hostil: temos de cobrir o corpo com camadas cuidadosas de algodão e lã de dia e nos enfiarmos dentro de lençóis e edredons à noite. Por um breve tempo, no banho, nada disso é necessário. Um banho é uma tarde quente artificial no meio do verão. É uma volta à nudez fácil de nossos ancestrais primatas.

Só que o prazer do banho é principalmente intelectual. Banhos são ocasiões ideais para pensar. Sua capacidade de nos fazer ter ideias produtivas provavelmente é maior do que a de lugares aos quais formalmente atribuímos essa função: o escritório, a sala de reuniões, a biblioteca ou o laboratório. O motivo é que nossos maiores pensamentos geralmente não surgem quando queremos, mas sim tendem a aparecer quando não estamos procurando, como cervos tímidos que relutam a sair das sombras da floresta por medo do caçador. A água quente tira os hábitos nervosos da cabeça. Estamos livres.

Buscamos liberar as melhores ambições de nossa mente no conforto da água quente do chuveiro.

Texto do The Book of Life

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