Aceitando as Mudanças

Durante a maior parte da História humana, as pessoas não acreditavam que o mundo mudasse muito ou, pelo menos, que a mudança poderia ser positiva. Estabilidade e ciclicidade eram os ideais. As mesmas narrativas eram contadas repetidamente, o tempo era entendido como uma roda que gira, não uma seta disparada, comércios eram passados de geração para geração e a ordem social parecia imutável.

Por outro lado, somos obcecados pela mudança e a saudamos. Somos ensinados a considerar a mudança ampla e frequente algo inescapável – e uma profunda vantagem. Confessar ter medo dela é arriscar ser rotulado como a mais amaldiçoada das figuras contemporâneas: um reacionário.
Ainda assim, nossa adaptabilidade à mudança não é algo inato e nem sempre é totalmente objetiva. A arena na qual as vantagens da mudança são mais evidentes é a ciência; a direção da mudança na tecnologia e a noção de progresso, óbvia. A medicina oferece inúmeros exemplos disso.

Para ganhar disposição para agir, tirar a nós mesmos e nossas comunidades da inércia, não temos escolha a não ser superestimar taticamente as vantagens que vêm com a mudança. Fazemos isso com casar, divorciar, mudar de país, abrir uma empresa ou trocar as crianças de escola. Não é que nunca exista um resultado bom, mas simplesmente que também haverá, claro, diversas perdas sutis.
Independentemente do quanto somos abertos à mudança, está na natureza das revoluções termos o mau hábito de sentir falta delas, pois, muitas vezes, acontecem rápido demais. Durante muitas gerações, as pessoas na antiga Pompeia tiveram uma vida próspera, só que ninguém pensava no monte que se sobressaía no horizonte da cidade. A história de Pompeia é comovente porque é sobre uma inocência, na qual sabemos estar envolvidos de alguma forma. Também para nós, algo que ignoramos solenemente será a causa de nossa queda repentina. Dirigimos cegamente, na rotina de sempre, com a presunção natural de que o que parece seguro hoje também parecerá amanhã. Não temos uma ideia real sobre de onde poderá vir a próxima explosão.

Subestimamos oportunidades de mudar, talvez, porque nossas vidas são muito breves. Em geral, podemos testemunhar apenas algumas poucas revoluções nelas. Então, somos enganados pelas impressões de estabilidade – como crianças que consideram seu lar de infância uma parte eterna do planeta. Nosso erro congênito é imaginar que, se algo parece sólido, deve realmente ser. Ficamos acostumados a lamparinas a gás, que já existiam quando nascemos, então por que elas desapareceriam? Ficamos acostumados a nossos pomares organizados amadurecendo sob o sol nas encostas de uma montanha fértil; por que um inferno aconteceria aqui?

No final das contas, é muito compreensível que a mudança seja tão assustadora ou, pelo menos, triste: não estaremos aqui durante a maior parte dela. Um medo da mudança que um dia nos tirará daqui permeia nossa ocasional falta de adaptabilidade. Por sermos tão expostos à mudança em nós mesmos, tentamos fazer ou proteger coisas que durarão mais do que nós, incluindo empresas. Temos tanto com o que lidar em termos de mudança em nossos corpos que não é estranho nos vermos, muitas vezes, profundamente interessados em coisas que resistam a mudanças no mundo lá fora. Definimos algumas das coisas com as quais nos importamos mais quando ousamos perguntar a nós mesmos o que esperamos que nunca mude.

Recent entries