A Inevitabilidade do Fracasso

Ouvimos tantas coisas sobre histórias de sucesso que– naturalmente – imaginamos que elas devem ser a regra e esquecemos que são, na verdade, raríssimas exceções e, assim, são referências inúteis e enlouquecedores para uma comparação.

Precisaríamos de uma impressão estatisticamente mais confiável sobre como é a vida das outras pessoas, o que nos ensinaria o padrão normal em que ela transcorre, mas muito raramente conseguimos tê-la. Em vez da galeria de heróis à qual somos expostos, precisamos testemunhar frequentemente casos corriqueiros do cotidiano: pessoas que se agarram a hipóteses enganosas, tomam decisões erradas, que se afastam cuidadosamente do que mais tarde se revelariam ser as melhores opções, que se comprometem animadamente com erros, que são ignoradas pela maioria e odiadas por poucos, que nunca experimentam a verdadeira realização no amor, que são cheias de arrependimento quanto à família e morrem com muita amargura e dor.

A dificuldade universal é fundamentalmente triste, mas insistimos em nos sentir envergonhados de uma das verdades mais básicas publicamente reconhecidas sobre a condição humana: a de que fracassamos.

Por muito tempo, nossas sociedades insistiram, de forma cruel e sentimental, no oposto, que todos podemos vencer e venceremos. Ouvimos falar de resiliência, de dar a volta por cima, de nunca se render e dar mais uma chance. Nem todas as sociedades e eras foram tão impiedosas. Na Grécia Antiga, uma possibilidade notável – tão estranha quanto uma nau nos dias atuais – foi vislumbraada: você poderia ser muito bom e, mesmo assim, apesar de tudo, errar. Para manter a ideia no centro da imaginação coletiva, os gregos desenvolveram a arte do drama trágico. Uma vez por ano, em festivais imensos nas principais cidades, todos os habitantes eram convidados a ver histórias de fracasso espantoso, muitas vezes mórbido: pessoas que haviam infringido uma lei nada importante, tomado uma decisão apressada, dormindo inadvertidamente com a pessoa errada e, depois, sofrido infâmia e punição extremamente rápidas e desproporcionais. Ainda assim, a responsabilidade estava longe de pertencer apenas aos heróis trágicos – era obra do que os gregos chamavam de “providência” ou dos “deuses”, uma forma poética de insistir que destinos não refletem razoavelmente os méritos dos indivíduos em questão. Tínhamos de sair do teatro despidos do moralismo fácil, solidários às vítimas, temerosos por nós mesmos.

Sociedades modernas têm mais dificuldade com isso: parecem incapazes de aceitar que uma pessoa verdadeiramente boa possa não ter sucesso. Se alguém fracassa, parece mais fácil acreditar que não era, no final das contas, boa de alguma maneira, e esta conclusão nos defende de um pensamento muito mais perturbador, menos disseminado e, ainda assim, muito mais verdadeiro: o de que, na verdade, o mundo é muito injusto.

Todos estamos à beira da tragédia – em sociedades que hesitam em nos oferecer dramaturgos solidários para narrar nossas histórias.

Por isso, precisamos nos equipar com as ferramentas para lidar com o fracasso em nossos próprios termos. Para termos uma compreensão madura daquilo com que estamos lidando e com uma impressão consoladora da universalidade da derrota, da imperfeição e de um certo grau de melancolia. Nenhuma vida está livre do fracasso, então percebemos que fracassar bem é uma arte -- e uma das mais necessárias que podemos aprender.

Mais informações sobre a aula Como Lidar com o Fracasso aqui.

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