As Dificuldades de Estar no Presente


Muitos de nós sofremos de um problema que parece peculiar: uma incapacidade de ficar adequadamente no período de tempo que chamamos de “presente”.
Podemos estar em uma bela praia em um dia ensolarado, de céu azul, com palmeiras altas e implausivelmente delicadas, mas a maioria de “nós” não está realmente aqui, mas sim em algum lugar no trabalho ou tendo uma discussão imaginária com um rival ou tramando uma nova empreitada.

Talvez estejamos no aniversário de uma criança: é tremendamente importante para ela e a amamos de paixão, mas estamos em outro lugar: nosso corpo está fincado no agora, mas nossa mente salta para momentos no futuro e no passado.
O que torna o presente, especialmente os melhores momentos dele, tão difícil de vivenciar apropriadamente? Por que, por outro lado, tantos eventos podem parecer mais fáceis de aproveitar, desfrutar e perceber quando acabaram definitivamente?

Um benefício do passado é que é uma versão dramaticamente editada do presente. Até os melhores dias de nossa vida contêm alguns momentos tediosos e desconfortáveis, mas, na lembrança, como editores habilidosos de horas de cenas brutas e muitas vezes nada inspiradas, fixamos nos momentos mais memoráveis e, portanto, construímos sequências que parecem muito mais significativas e interessantes do que os cenários que as geraram. Horas de mediocridade podem ser reduzidas a seis imagens perfeitas. A nostalgia é o presente melhorado por uma máquina de edição.


Boa parte do que arruina o presente é ansiedade pura. O presente sempre contém um número enorme de possibilidades, algumas tremendamente terríveis, das quais estamos constantemente cientes. Qualquer coisa pode teoricamente acontecer – um terremoto, um aneurisma, uma rejeição –, o que origina a ansiedade não específica que acompanha a maioria de nós o tempo inteiro; o simples temor de não saber o que está por vir.

No entanto, claro, apenas uma quantidade limitada de coisas horríveis realmente passam e esquecemos a ansiedade imediatamente (ou a transferimos para o novo presente). Então, quando recordamos um evento, o que deixamos fora disso é quanto dele realmente passamos prevendo um futuro espantoso que nunca veio.


Nossos corpos também colaboram para nos distrair do presente. Eles têm seus próprios humores e itinerários. Podem se sentir cansados e tímidos exatamente quando a paisagem ao nosso redor exige grandeza e confiança, mas esses humores dissonantes também são excluídos de nossa memória; lembraremos a vista para o oceano por mais tempo que o leve enjoo que nos entregou no momento.

Nossas mentes são lugares cavernosos e caóticos. Tanta coisa passa por elas, tendo pouco a ver com o que está bem diante de nossos olhos, que acabamos parecendo ingratos por estar onde estamos. Alguém está contando uma história importante e não por mal – simplesmente pela dificuldade de ter de controlar a entidade chamada “eu” –, digerimos um ou outro arrependimento. Estamos em um lugar lindo, mas mal conseguimos aproveitar a vegetação e a vista extraordinária, de tão fixados que estamos em um evento que acontecerá dali a seis meses.


Precisamos estar preparados para o jeito esquisito em que nos alinhamos com o mundo e não nos criticarmos injustamente por nossa dificuldade de fazer justiça a onde nossos corpos e mentes por acaso estão. Deveríamos estar pronto para essa deslealdade também em outras pessoas – em momentos nos quais parecem estranhamente preocupadas em uma festa que damos ou não parecem ouvir uma história que estamos contando. Elas também podem estar enfrentando algumas das grandes dificuldades de estar no presente. Como nós, provavelmente gostarão muito mais de nosso encontro quando o presente der lugar à lembrança.

Texto escrito por Alain de Botton

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