A Arte de se Manter Sereno

Poucas habilidades são tão importantes e ao mesmo tempo tão negligenciadas quanto a capacidade de manter a calma. Quase sempre, nossas piores decisões são tomadas em momentos em que perdemos a calma e nos deixamos dominar pela ansiedade e a agitação. Felizmente, nosso poder de permanecer calmos pode ser exercitado e aperfeiçoado. Não precisamos aceitar o estado atual das coisas: nossas reações diante dos desafios do dia a dia podem ser radicalmente transformadas. E para nos educarmos na arte de manter a calma, não precisamos de técnicas respiratórias nem de chás especiais – mas apenas do pensamento.
A calma tem um encanto profundo e natural. Quase todo mundo quer ser mais paciente, sereno, relaxado e capaz de reagir com discreto bom humor aos contratempos da vida e ao que nos causa irritação.

Mas costumamos ter apenas uma vaga ideia do que fazer para ter mais calma. Enquanto isso, a ansiedade está dia e noite à nossa espreita, tamborilando quase o tempo todo em segundo plano. Ela pode estar conosco agora mesmo.

Mas há outra abordagem que interpreta nossas preocupações como sinais neuroticamente distorcidos porém fundamentais do que talvez esteja errado na nossa vida. Segundo essa visão, a questão não é tentar negar ou neutralizar a ansiedade, mas aprender a interpretá-la, decodificando algumas informações valiosas que nossos momentos de pânico estão tentando nos transmitir de uma maneira reconhecidamente infeliz.

Toda situação em que perdemos a calma pode ser analisada e nos revelar algo que deveríamos saber sobre nós mesmos. Cada preocupação, frustração, episódio de impaciência ou ataque de irritação tem algo de importante a nos dizer – desde que estejamos dispostos a decodifica-lo.
É possível também encontrar um tipo de tranquilidade em um lugar muito inesperado: o pessimismo.

O otimismo ensolarado tem seus limites, porque, quando as coisas dão errado (e darão), estamos tristemente despreparados, como uma criancinha cujo sorvete acabou de cair no chão.

Em vez disso, precisamos mudar nossa forma de olhar para o mundo. Para isso, precisamos voltar a um grupo de filósofos romanos chamados “estoicos”, especialmente para um chamado Lucius Annaeus Seneca – ou Sêneca, como é mais conhecido.

Sêneca não dizia que deveríamos desistir de aproveitar o momento ou mudar o mundo – muito pelo contrário. Ele amava a vida e teve muito sucesso. O que ele disse foi que deveríamos entender que sucesso e fracasso são resultados bastante aleatórios, que temos muito menos controle sobre um deles do que achamos, e que, em vez de presumir que tudo correrá bem, deveríamos nos preparar psicologicamente para as coisas darem errado.

Para tal, Sêneca propôs que devêssemos começar cada dia com o que chamava de premeditatio, ou premeditação, na qual pensamos em tudo o que poderá dar errado. A ideia não era cair em desespero sobre o dia, mas entender que, mesmo se todos os eventos terríveis que imaginamos acontecessem – ser demitidos, humilhados, ter uma discussão horrível –, ainda sobreviveríamos. Pode ser doloroso, mas ainda estaríamos aqui e encontraríamos um jeito de seguir em frente, com muito menos ansiedade.

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