A Armadilha do Perfeccionismo


Muitas vezes, focamos em uma carreira em especial porque ficamos profundamente impressionados pelos feitos dos profissionais mais realizados na área. Formulamos nossas ambições ao admirarmos as belas estruturas do arquiteto responsável por projetar o novo aeroporto da cidade ou seguirmos as negociações intrépidas do mais rico gestor de fundos de Wall Street, ao lermos as análises do aclamado romancista literário ou experimentando os pratos apetitosos no restaurante de um chef premiado. Formamos nossos planos de carreira com base na perfeição.

Então, inspirados pelos mestres, damos nossos primeiros passos e os problemas começam. O que conseguimos projetar, ou ganhar no primeiro mês de negociação, ou escrever em um conto inicial, ou cozinhar para a família está absurda e notavelmente abaixo do padrão que gerou nossas ambições. Nós, que somos tão cientes da excelência, acabamos sendo os menos capazes de tolerar a mediocridade – que, neste caso, por acaso é a nossa.

Ficamos presos em um paradoxo desconfortável: nossas ambições foram movidas pela grandeza, mas tudo o que sabemos sobre nós mesmos aponta para uma ineptidão congênita. Caímos no que podemos chamar de Armadilha do Perfeccionismo, definida como uma poderosa atração à perfeição, desprovida de qualquer entendimento maduro ou suficiente sobre o que é necessário para atingi-la.

A culpa não é essencialmente nossa. Sem revelar isso de alguma forma, ou até talvez estando ciente disso, nossa mídia deixa de lado bilhões de vidas comuns e anos de fracasso, rejeição e frustração, mesmo naqueles que conquistam algo – para servir uma amostra diariamente selecionada dos principais momentos da carreira, que, dessa maneira, acabam não parecendo ser as violentas exceções que são, mas sim uma norma e um referencial de realização. Começa a parecer que “todos” são bem-sucedidos porque todas as pessoas de quem ouvimos falar realmente são sucessos – e nos esquecemos de imaginar os oceanos de lágrimas e desespero que necessariamente as cerca.

Nossa perspectiva é desequilibrada porque conhecemos muito bem nossas lutas por dentro, mas somos expostos a narrativas de conquista aparentemente sem dor por fora. Não podemos nos perdoar dos horrores dos rascunhos iniciais – basicamente porque não vimos os daqueles que admiramos.

Precisamos de uma imagem mais sã de quantas dificuldades estão por trás de tudo que desejaríamos emular. Não deveríamos olhar, por exemplo, para as obras primas de arte em um museu, mas sim ir ao estúdio e ali ver a angústia, versões iniciais estragadas e marcas de água no papel sobre o qual o artista chorou. Deveríamos focar no tempo que o arquiteto levou até receber sua própria encomenda de respeito (ele tinha mais de 50 anos), desenterrar as histórias do início do escritor que agora ganha prêmios e examinar mais de perto quantos fracassos o empreendedor teve de enfrentar.

Precisamos reconhecer o papel legítimo e necessário do fracasso, permitir a nós mesmos fazer as coisas de modo imperfeito por muito tempo – como um preço que não podemos deixar de pagar por uma oportunidade um dia, daqui a muitas décadas, de fazer algo que os outros considerarão um sucesso espontâneo.

 

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