A aceitação da mudança

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Durante a maior parte da história da humanidade, as pessoas não acreditavam que o mundo mudasse muito nem que mudanças pudessem ser positivas. O ideal era tudo ser estável e cíclico. As mesmas histórias eram contadas sempre, o tempo era compreendido como uma roda girando e não como algo que avançasse como uma flecha, a tecnologia pouco avançava, os negócios eram transmitidos de geração em geração, e a ordem social parecia imutável.

Nós, pelo contrário, somos obcecados e louvamos a mudança. Somos ensinados a considerar a mudança generalizada e frequente como inevitável – e uma vantagem profunda. Sentimos só pena do passado e medimos nossa virtude por nossa abertura à revolução contínua. Confessar sentir medo de mudança é correr o risco de ser rotulado como a mais condenada das figuras contemporâneas: o reacionário.

No entanto, nossa adaptabilidade à mudança não é nem dada nem sempre totalmente direta. O campo nas quais as vantagens da mudança ficam mais evidentes é a ciência. O protótipo de helicóptero construído por Paul Cornu em 1907 era uma engenhoca extremamente imponente de madeira compensada, cordas e rodas de bicicleta. Mas é, sem dúvida, muito pior na decolagem vertical e em pairar no ar do que as máquinas mais recentes da Agusta Westland. A direção da mudança na tecnologia é clara, e a sensação de progresso, evidente. A medicina fornece inúmeros exemplos do mesmo tipo – que nos leva a supor que, em geral, a mudança deve sempre trazer benefícios extremos, estendendo uma esperança que é totalmente justificada em áreas específicas como pás de rotor e antibióticos e outras áreas em que sua relevância e legitimidade são, na realidade, muito menos seguras.

Por exemplo, na política e na sociedade. Sabemos – pelo folclore ou nossas próprias vidas – que em alguns pontos os métodos antigos não eram simplesmente anacrônicos. Eles continham verdades importantes e tipos de felicidade que agora escapam à nossa compreensão. As aldeias eram mais calmas, o comércio, mais restritos, os modos, mais sóbrios, mas havia uma abertura à experiência, um enraizamento e uma gratidão que talvez desejemos no frenesi do caleidoscópio atual. Para provocar o desejo de ação, despertar a nós mesmos e nossas comunidades da inércia, não temos opção além de taticamente superestimar as vantagens resultantes das mudanças. Fazemos isso em relação a casamento, divórcio, mudança de país, começar um negócio ou mudar as crianças de escola. Não que elas jamais terão um bom resultado, mas simplesmente haverá também, é claro, uma variedade de perdas sutis. Nem tudo pode coexistir. O resultado é sempre mais ambivalente do que podemos imaginar. A nostalgia não é apenas algo simplório, é uma resposta natural ao que é perdido, mesmo com todas as melhorias genuínas.

Por mais aberto a mudanças que possamos ser, é da natureza das revoluções que tenhamos o mau hábito de perdê-las. Muitas vezes, elas simplesmente vêm rápido demais. Por muitas gerações, o povo da antiga cidade de Pompeia viveu uma vida próspera. O solo era bom, o clima, ameno. Eles construíram casas agradáveis e plantaram vinhedos nas encostas do vizinho Monte Vesúvio enquanto, todo o tempo, a pressão do magma se acumulava lentamente em seu interior. As pessoas faziam jantares, lutavam por status, compravam obras de arte e examinavam o horizonte em busca de mudanças – positivas e negativas. Apenas ninguém levou em consideração o pico acima do horizonte da cidade. A história de Pompeia é comovente porque é a história de uma inocência, em que sabemos estar nós mesmos de alguma forma implicados. Também para nós, algo que estamos ignorando alegremente será a causa provável de nossa súbita ruína. Seguimos cegamente, perseguindo nossa vida normal com a suposição natural de que o que parece seguro hoje continuará assim amanhã. Nós também não temos uma ideia real de onde pode vir a próxima explosão.

Ou então não conseguimos nos adaptar porque a mudança é muito  lenta. O mar pode ser uma metáfora melhor do que um vulcão. Ano após ano, as ondas corroem as rochas gradualmente. A mudança completa ocorre através de mínimas ações imperceptíveis. Não podemos acreditar que pequenos movimentos de ondas sejam capazes de vencer um imenso edifício rochoso – mas são.

Em última instância, bons teóricos da mudança não se concentram tanto no ritmo da mudança. Eles identificam traços fundamentais da natureza humana e se perguntam como as mudanças se relacionarão com esses traços. Quando Thomas Edison apresentou a primeira lâmpada, não pareceu nem de longe que o mundo estava prestes a ser transformado. O objeto era uma engenhoca de aparência estranha, totalmente diferente de qualquer coisa que alguém fosse querer dentro de casa. O gás era (inicialmente) muito mais seguro e barato. Apoiadores potenciais se mostraram profundamente céticos. Mas quando o grande banqueiro J. P. Morgan viu a invenção, compreendeu suas possibilidades imediatamente. A lâmpada parecia ridícula, mas apenas superficialmente. Morgan viu além do que era esquisito e desconcertante e reconheceu uma ideia eterna em um disfarce estranho. O banqueiro era bom no que chamamos de reconhecimento de padrões. Ele tinha a confiança e a sabedoria de ver continuidade onde outros pensavam apenas em termos de rupturas feias. Ele havia visto mudanças antes, com as ferrovias e o aço, e as  compreendera como novas soluções para problemas antigos. Morgan havia – por assim dizer – estudado outras montanhas explodindo.

Nós subestimamos oportunidades de mudanças em parte porque nossas vidas são muito curtas. De modo geral, podemos testemunhar diretamente apenas algumas poucas revoluções. Assim, somos enganados por impressões de estabilidade – como as crianças, que consideram seus lares da infância como uma parte eterna do planeta. Nosso erro congênito é imaginar que o que parece tão sólido deve realmente ser assim. Nós nos acostumamos com lâmpadas a gás, que existem desde que chegamos à Terra, então, por que elas desapareceriam? Nós nos acostumamos com nossos pomares amadurecendo ao sol nas encostas de uma montanha fértil. Por que o inferno chegaria aqui? O erro vem fascinando filósofos há muito tempo. Bertrand Russell imaginou um peru acostumado a ser alimentado por um fazendeiro. Como nós, perus têm memórias curtas. Assim, quando ouvem o barulho das botas do fazendeiro, têm certeza de que – é claro – estão prestes a serem alimentados, como sempre. Então chega a semana antes do natal. O peru é uma criatura de hábitos, como nós, em grande parte do tempo, mas nós temos, ao menos teoricamente, a razão e, portanto, uma vantagem importante. Um peru filosófico se perguntaria por que o fazendeiro o ajudava todos os dias e especularia sobre possíveis motivos até então desconhecidos. A presença de um fator misterioso assombraria a imaginação do animal ignorante. A resposta à complacência não é tanto estar continuamente no limite, mas tentar pensar mais profunda e ceticamente em relação ao funcionamento da realidade.

Também somos prejudicados por uma falsa noção de hierarquia quanto ao que se qualifica como trivial e o que é importante. Temos ideias implícitas e distorcidas quanto ao que deve valer a pena prestar atenção e ao que podemos ignorar com segurança. Os primeiros colonos noruegueses na Groenlândia sofreram terríveis dificuldades e acabaram morrendo, porque se recusaram a adotar as habilidades e estratégias de sobrevivência conhecidas dos inuítes. Os noruegueses não acreditaram que pessoas tão estranhas – e aparentemente não sofisticadas – pudessem lhes ensinar qualquer coisa. A um custo fatal, recusaram-se a aprender, porque as lições oferecidas vinham em invólucros que violavam todas as expectativas de como a inteligência sofisticada poderia parecer. Da mesma forma, a elite do Reino Unido entrou em grave declínio econômico em meados do século 20, em grande parte porque seus caráteres insulares resistiram a aprender sobre a natureza da grande mudança econômica de pessoas que consideravam seus inferiores radicais: empresários americanos. Dispensamos os Beatles, ou tratamos Sócrates ou Van Gogh como tolos porque estamos mais preparados para seguir um roteiro conhecido do que é valioso do que avaliar os verdadeiros méritos do que temos diante de nós em cada ocasião. Nos esquecemos das formas estranhas que as ideias realmente grandes tendem a adotar.

No fim, é bastante compreensível que as mudanças sejam tão assustadoras ou pelo menos tristes: nós não estaremos por perto para a maioria delas. Por baixo da nossa ocasional falta de adaptabilidade está o pavor da mudança que um dia nos eliminará. É por estarmos tão expostos às mudanças em nós mesmos que buscamos fazer ou proteger coisas que durarão mais do que nós, negócios, inclusive. Temos de lidar com tantas coisas em termos de mudanças em nossos corpos que não é de estranhar que nos vejamos muitas vezes profundamente interessados em coisas que possam resistir a mudanças no mundo externo. Definimos algumas das coisas de que mais gostamos quando ousamos nos perguntar o que esperamos que nunca mude. 

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